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Brasil. Um Gigante Adormecido?

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FALTA PRODUTIVIDADE NESTE PAÍS!

ImagemHá alguns meses descobri o blog do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Mansueto Almeida. Rapidamente tornou-se leitura obrigatória. De maneira muito lúcida e sem partidarismos, Mansueto analisa cada cantinho da economia brasileira, apontando erros e acertos das políticas econômica e fiscal. Hoje tive a oportunidade de entrevista-lo. No bate-papo, uma aula de economia. Confira!

Núria Saldanha: Qual a importância do orçamento? Ele funciona no Brasil?

Mansueto Almeida: Teoricamente deveria funcionar. O orçamento é onde está escrito tudo que o governo vai gastar com saúde, educação, investimento público ao longo do ano e também quanto o governo tiver a arrecadar. Em todos os países do mundo é um instrumento muito importante para o controle do gasto público e também para a meta de primário, o quanto o governo vai economizar ao longo do ano. No Brasil, infelizmente, não funciona muito dessa forma. Por quê? Por que todos os anos se aprova um orçamento inflado. Um orçamento que espera um crescimento muito grande da economia que não ocorre. Um orçamento onde se espera um crescimento muito grande da arrecadação, o que também não ocorre e todos os anos no início tem logo um contingenciamento, ou seja, se aprova muita coisa no orçamento e no início de cada ano, o governo faz uma programação financeira e um contingenciamento como foi feito hoje com a programação financeira. O governo liberou recurso só até agosto deste ano.

NS: A gente viu hoje os dados da produção industrial brasileira (queda de 3,3% em março na comparação anual), os dados vieram bem abaixo do que o mercado esperava. O PIB já começa a ser revisto a partir daí?

 MA: Tem uma notícia boa e uma notícia ruim. A notícia boa é que o investimento, a produção de bens de capital está aumentando bastante.  A notícia ruim, o crescimento da produção industrial foi muito abaixo da expectativa do mercado e isso sinaliza uma revisão de PIB para baixo. É um fato muito ruim porque o governo vem tomando várias medidas de desoneração tributária, direcionada a indústria, vem reduzindo custo de energia, uma série de medidas, mas por enquanto a produção industrial está reagindo muito de vagar e isso é preocupante.

NS: Por que o Brasil está com um cenário de crescimento muito baixo da economia e inflação acelerando?

MA: Pelo seguinte motivo: hoje a taxa de desemprego no Brasil é muito baixa, próxima de 5%, então você não tem muitos recursos ociosos, não tem muito trabalhador disponível, é difícil encontrar determinados tipos de trabalhadores e a indústria concorre com o setor de serviços. O setor de serviços é um setor que a concorrência é limitada. O setor de serviços aqui não concorre com o resto do mundo.  Eu não posso sair e importar um restaurante de Nova York para ir jantar, mas produto manufaturado concorre com o resto do mundo.  No setor de serviços se tem aumento de custo, repassa para preços. A inflação de serviços no Brasil é acima de 8%. Setor de manufatura, indústria, não consegue repassar aumento de custo para preços, concorre com o resto do mundo e como o Brasil é um país muito caro, a indústria manufatureira, a indústria de transformação perde mercado e isso aumenta a importação de manufaturados. Por que que isso acontece? Por que a gente tem uma economia muito aquecida e a produtividade do Brasil não está crescendo como deveria. 

NS: E o que falta para crescer como deveria?

MA: Uma série de coisas. O problema do Brasil hoje, ao contrário de 10 anos atrás, não é mais demanda. O crescimento da demanda, as vendas reais do varejo aumenta quase continuamente nesse país desde 2003/2004.  O nosso problema hoje são questões que a gente chama, questões de oferta.  Por exemplo, a gente tem rodovias precárias e isso aumenta o custo do frete; a gente tem portos que não funcionam muito bem, então o exportador tem que esperar muito para mandar o produto para outros países. Demora muito para importar determinados insumos que ele vai usar na produção industrial. Você tem ferrovias também precárias, uma rede de ferrovias muito limitada.  A mão de obra do Brasil, embora tenha melhorado muito a escolaridade nos últimos 15 anos, a escolaridade ainda é baixa, a produtividade é baixa. Uma série de fatores que a gente chama de fatores que limitam a oferta. Resumindo tudo, a produtividade dos fatores no Brasil é muito baixa.

NS: E produtividade exige melhor educação, né?

MA: Exige várias coisas. Exige melhoria da educação,  melhor treinamento do trabalhador. Exige também mais eficiência do funcionamento da economia como um todo.  Eficiência da Justiça, de transportes, obras de infraestrutura. Tudo isso afeta a produtividade. É uma agenda complexa, não é uma agenda que você resolve em 2 anos. É uma agenda de médio e longo prazo. E é uma agenda que a gente dormiu, porque desde 2005 esse país não fez reformas institucionais como vinha fazendo de meados da década de 90 até 2005.

NS: O governo vem tomando uma série de medidas para conter a inflação, entre elas desonerações fiscais e de alguns setores da economia brasileira. Esse tipo de medida ajuda a conter a inflação?

MA: Ajuda a conter a inflação num período muito curto, no curto prazo, mas ele não modifica a dinâmica da inflação. Ocorre inflação no mundo todo, inflação é resultado de excesso de demanda sobre a oferta. Quando o governo desonera alguns produtos, na verdade ele pode inclusive aumentar ainda mais a demanda e piorar o problema inflacionário. Então essas desonerações pontuais, elas não resolvem o problema da inflação.

NS: Se desonera alguns setores arrecada menos, como ficam as contas do governo?

MA: Tem dois problemas. Um problema é quando se desonera determinados produtos, como por exemplo, redução do IPI para automóveis. Isso aumenta a demanda por automóveis, então pode contribuir para inflação. A outra é quando se desonera insumos que são utilizados pela indústria, como energia, etc. Pode ajudar a diminuir o custo? Pode. Mas o problema, como você bem falou é que a gente não está criando espaço fiscal para essas desonerações. Essas desonerações estão sendo feitas sem a desoneração do gasto, o que na realidade significa que a gente está reduzindo a economia do governo para pagar os juros e a dívida.  O que significa também que como o governo está gastando muito e reduzindo a arrecadação, em alguns setores o governo está contribuindo também para a inflação, porque o governo é parte da demanda.

NS: E aí acaba aumentando a dívida?

MA: Acaba aumentando a dívida, o que significa que a economia possível que se teria com a redução de juros não vai ocorrer. Na realidade, no ano passado, o Brasil já teve uma economia substancial com a redução de juros. O setor público como um todo pagou de juros, em 2011, 5,7% do PIB. No ano passado o setor público pagou de juros 4,8% do PIB. Então, você teve uma redução substancial do pagamento de juros. Apesar disso, o investimento não cresceu e grande parte dessa economia de juros se transformou em gasto de custeio.

NS: Essa semana a gente viu também o resultado da balança comercia. A gente está importando muito mais do que vendendo para o mundo. Isso chega a ser um problema para a economia brasileira?

MA: Não é um problema tão sério porque o Brasil tem recebido muito investimento direto externo. É um dos países do mundo que mais recebe investimento do mundo. Mas quando você olha para médio e longo prazo, preocupa, porque um país que importa muito e tem déficit em conta corrente,   que é o caso do Brasil, significa que ele vai ter uma pressão maior no futuro para remessa de lucros em dividendos. Então o Brasil tem um problema muito sério, que é uma poupança muito baixa.  A poupança no Brasil é em torno de 16% do PIB. Toda vez que esse país cresce um pouco mais rápido e a taxa de investimento aumenta, a gente precisa da ajuda do resto do mundo. A ajuda do resto do mundo se dá via aumento de importação e déficit em conta corrente. E a tendência disso é aumentar, não é diminuir.que


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