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Deixa a Vida me Levar? Vida Leve

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Quem sabe um dia não fazemos uma convenção dos caminhoneiros que gostam de andar de bicicleta?

Porque também sou daqueles que vieram de caminhão. E andaram pela vida transformando os sonhos em tarefas pesadas. Cada objetivo que me impunha era como uma carga a ser levada a seu destino. Vendo as coisas desse modo, é claro que os revezes do caminho causavam muito mais sofrimento e desespero. E, o pior: a quase incapacidade de curtir a paisagem, sentir o vento soprando no rosto quando tudo ia bem.

Felizmente, depois de muitas dificuldades, já faz uns oito anos, percebi que a carga já tinha sido entregue, e me permiti o sofrimento de admitir que não tinha chegado ao paraíso que imaginava. Na realidade, a vida que eu tanto quis parecia não ter qualquer sentido. Com o caminhão ao lado, parado e vazio, resolvi que não era o caso de inventar mais um carreto. Eu precisava urgentemente  de um novo olhar sobre a vida.

E foi viajando para dentro de mim (com a ajuda dos livros) que descobri que o mais importante, inclusive para a minha felicidade, não era o que a vida podia me dar, mas o que eu poderia oferecer à vida diariamente. Este blog é um apanhado das minhas descobertas e uma homenagem aos meus guias de viagem: poetas, escritores, jornalistas, psicólogos, filósofos, religiosos e compositores inspirados. Se tem uma frase, dentre as tantas que me encantaram, que  melhor sintetiza este novo olhar sobre a vida, a frase é:A vida é perto.

Agora estou aqui, ainda nesta busca, ainda caminhoneiro. Mas também passeio de bicicleta lentamente: reparo no que está ao meu lado, no mar da vida, infinitamente triste e belo porque transitório, frágil e defeituoso como eu. Como escreveu Manuel Bandeira:

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A arte de ser leve, de Leila Ferreira

Obrigado, Leila, pela sua palestra e pelo seu livro, que me foi presenteado por colegas de trabalho (gentileza).

Um pouco sobre o livro

A arte de ser leve é uma grande reportagem. A jornalista Leila Ferreira foi a campo conhecer pessoas que, apesar das tristezas vividas, conseguem, de um jeito ou de outro, viver melhor. Conversou também com profissionais (psicólogos, filósofos, educadores, historiadores) que lidam com a questão da felicidade.

Não se trata do conceito popular de felicidade – um prazer constante que só existe nos comerciais e nos sorrisos posados. O livro investiga o que chama de felicidade modesta, ou leveza. A felicidade que convive com as tristezas e sofrimentos da vida. A felicidade que não pode ser buscada diretamente, mas pode vir como efeito colateral do empenho em dar à vida um significado pessoal.

Leila Ferreira examina os comportamentos que, hoje, nos têm desviado do caminho de uma vida mais leve. Vivemos com muita pressa, numa busca frenética por sucesso, produtos e atividades que parecem não ter significado. Os outros viraram meios ou obstáculos que bajulamos ou atropelamos de acordo com a ocasião. Nessa correria, esquecemos o mandamento mais básico que vem sendo ensinado desde o início da história humana pelos sábios – a regra de ouro: amar o próximo como a si mesmo; ou tratar o outro como você gostaria de ser tratado. A arte de ser leve é dividido em capítulos que refletem sobre as atitudes que podem nos fazer retomar o velho, e sempre novo, caminho em direção ao próximo: Gentileza, Bom humor, Descomplicação, Desaceleração, e Convivência.

Um dos méritos do livro é entremear as considerações teóricas sobre a busca do bem viver com a experiência de vida de pessoas bem diferentes que descobriram cada uma seu caminho para a leveza:

Mais leve que meu tio e dona Dalcy, só mesmo Sá Luíza, benzedeira do Vale do Jequitinhonha, que estava com 106 anos quando a entrevistei. Pobre, saúde frágil, encolhida pelo tempo e por tudo que enfrentou ao longo de mais de um século, Sá Luíza, quando questionada do que gostava na vida, respondeu: “Da vida eu rapo é tudo!”. Depois de me contar como foi a única história de amor que viveu, e que a fez sofrer muito, suspirou e arrematou: “Ô, vida rica, minha fia!”

Em entrevista à revista Época, o historiador americano Darrin McMahon, autor deFelicidade: uma história, disse que tentar ser feliz é como deitar na cama e dizer: preciso dormir porque tenho um compromisso amanhã. “Nunca funciona. Talvez a melhor forma de ser feliz seja colocar o foco em outra coisa. Fazer algo de que você goste muito, dedicar-se à família, a um hobby, ao grupo à sua volta. Fazendo isso, a felicidade talvez venha indiretamente.”

Leia abaixo outros trechos do livro:


Achar que gentileza é supérfluo é miopia. Gentileza é qualidade de vida. Por um motivo simples: a vida é feita de relacionamentos. Vive melhor quem tem competência para se relacionar e faz parte dessa competência tratar o outro com civilidade e respeito.

O estresse acabou virando uma espécie de desculpa universal para comportamentos injustificáveis. Uma pessoa deixa de responder ao nosso “bom-dia” e depois diz simplesmente que estava estressada. Um chefe maltrata seus funcionários e acha esse comportamento natural porque tem andado estressado. Isso significa o quê? Que estamos perdendo o controle de nossas vidas?

Responder a uma grosseria com outra é falta de imaginação e geralmente nos arrependemos depois. O que não quer dizer que devemos fazer papel de bobo ou de capacho. É importante sabermos nos impor e nos fazer respeitar, mas isso jamais equivale a sermos grosseiros.

Em grande medida, a vida é o resultado de nossos relacionamentos. Temos que aprender a deixar o “eu” um pouco de lado para conviver com mais generosidade, mais consideração, mais delicadeza.

Denise [Fraga, atriz] acredita que andamos na defesa, com medo de sermos (ou agirmos como) pessoas gentis e generosas: “Dizer que uma pessoa é boa é quase uma ofensa. Boazinha, então, é pejorativo. Com isso, acabamos sendo piores do que poderíamos ser… É aquela história de você não dar a mão por medo de perder o braço, ou a síndrome do ‘vai que…’ ou ‘melhor não…’, ‘melhor não confiar, vai que…'”. A atriz afirma que, cotidianamente, ensina a seus filhos que “ser legal é legal”. Algo que coincide com a visão de P.M. Forni, e que Denise defende como gentileza firme: você consegue se fazer respeitar, e tem, ao mesmo tempo, um comportamento educado. Ao lamentar que tanta gente desconfie da gentileza e não veja o prazer que dá ser gentil, Denise atribui grande parte da falta de civilidade ao que chama de culto exagerado do indivíduo: “Tudo louva o ego. A publicidade, os discursos, as informações que nos chegam cultuam o ‘eu’. Mas o indivíduo existe no coletivo”.

Às vezes uma ou duas palavras de cortesia são suficientes para deixar o nosso entorno mais agradável. “Por favor” pode definir o tom de um diálogo. O problema é que o vocabulário da delicadeza tem encolhido. O filósofo paulista Renato Janine Ribeiro lamenta que as pessoas usem cada vez menos expressões como “por favor” e “obrigado”. E estranha a substituição do “obrigado” por “valeu”. “Dizer ‘obrigado’ significa que você se sente com obrigação em face da pessoa que lhe prestou um favor – isto é, ela fez algo que não tinha obrigação de fazer. Diante de uma dádiva, você afirma qeu se sente seu devedor e que procurará retribuir o presente – geralmente algo imaterial, sutil, como deixá-la passar à sua frente. Mas, quando você responde ‘valeu’, as coisas se invertem. Você diz ao outro que ele, o doador gratuito, cumpriu a obrigação, isto é, que o ato dele teve valor, mas nada mais além disso.”

Descomplicar, na minha modestíssima opinião, passa por aí, por uma aposentadoria compulsória desse conceito de que “o melhor” é sempre melhor. Melhor para quem? Melhor por quê?
Não sei quando foi que começou essa mania, mas hoje só queremos saber do melhor computador, do melhor carro, do melhor emprego, da melhor dieta, da melhor operadora de celular, dos melhores tênis, da melhor mulher, do melhor homem, do melhor vinho. Bom é pouco. O ideal é ter o top de linha, aquele que deixa os outros para trás e nos distingue, nos faz sentir importantes, porque, afinal, estamos com “o melhor”. Isso até que outro melhor apareça – e é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer. Novas marcas surgem a todo instante. Novas possibilidades também. E o que era o melhor de repente parece superado, modesto, aquém do que podemos ter.

Diante da transitoriedade de tudo, complicar a vida é, no mínimo, falta de inteligência. E era exatamente disto que falava Mario Sergio Cortella em nossa conversa: da vida vivida com mais leveza e simplicidade.
“Vida leve não é vida fácil nem superficial. É vida simples”, disse. “E simples não quer dizer pequeno, banal ou simplório. Simples é aquilo que é menos desgastante, que não esgota nossa energia. Posso ter uma vida simples em São Paulo, em Nova York ou na Ilha do Mel, assim como posso ter uma vida complicada em Caxambu, na Ilha do Mel ou em São Paulo.” Pergunto por que tem sido tão difícil viver com simplicidade. Quais têm sido os fatores de complicação? O filósofo acredita que o primeiro deles é a falta de sentido: muitas vezes não sabemos por que ou para que fazemos o que estamos fazendo.A possibilidade de ficarmos mais próximos daquilo que desejamos parece ser um dos alicerces na construção de uma vida mais simples. Quando converso com o escritor e jornalista carioca Márcio Vassalo – que escreve e vive com leveza – sobre o exercício da descomplicação, ele põe alguns “mais” e alguns “menos” na balança. Acha que precisamos ficar “menos obcecados pelo sucesso pessoal e de nossos filhos, menos presos ao passado e ao futuro, menos irritados, menos raivosos, menos ressentidos. Mas precisamos aproveitar mais o nosso tempo e reparar mais profundamente em nossos amores, nas pessoas à nossa volta, em nossos desejos essenciais”.Segundo o autor de Devagar [Carl Honoré], estamos vivendo na era da raiva, graças à velocidade. A pressa e a obsessão com a ideia de economizar tempo nos deixam furiosos quando alguém se interpõe em nosso caminho e atrapalha nosso ritmo. Isso pode acontecer nas estradas, na academia de ginástica, nas férias – ou até nos mosteiros budistas, atrevo-me a acrescentar. Estamos cada vez mais impacientes, porque não podemos perder tempo. E, além de não suportarmos pessoas lentas, computadores lentos ou o motorista a nossa frente que reduziu a velocidade porque está procurando o nome da rua, estamos perdendo dois hábitos saudáveis. Um deles é ficar sem fazer nada – o dolce far niente dos italianos. Ficar à toa, sem qualquer aparelho eletrônico nas mãos, deixando o corpo e a cabeça descansar é coisa que rarissimamente se faz hoje. [Essa pressa, somada à obsessão pelo melhor, também está nos deixando impacientes e irritados com nós mesmos, com nossas limitações, com o ritmo necessário para qualquer realização, para qualquer caminhada.]
Faça a experiência: pegue um álbum de fotos antigas, aquelas de avós e bisavós, observe bem e depois diga quantas pessoas sorridentes você encontrou ali. Uma? Nenhuma? Pois é. A época do “Say Cheese” ou “Fala X” é mais recente do que se pensa. A do “Sorria, você está sendo filmado”, mais ainda. Hoje, raramente alguém que pose para uma foto assume uma expressão de seriedade ou de tristeza. Sorria para a câmera, o fotógrafo ou cineasta nos diz. E nós, diligentemente, obedecemos.
Em seu livro Happiness is a serious problem ( A felicidade é um problema sério), o americano Dennis Prager afirma que nos sentimos obrigados a demonstrar que estamos felizes, nas fotos ou fora delas, e essa demonstração coletiva de “felicidade” faz as pessoas tirarem conclusões erradas. Acham que todos estão felizes de fato e se julgam piores do que o restante da humanidade porque não conseguem sentir aquela felicidade toda. A grama do vizinho é sempre mais verde, afirma o ditado. Ou a mulher do vizinho é sempre mais magra, como prefere Millôr Fernandes. Também a felicidade do vizinho supera a nossa. Ou, pelo menos, é o que acreditamos.No final do livro Admirável mundo novo, Aldous Huxley mostra o quanto pode ser sinistra (e trágica) a possibilidade de uma sociedade em que todos são felizes o tempo todo. O personagem que não consegue se encaixar naquele universo sem alma diz em tom de desafio: “Reclamo o direito de ser infeliz”. O direito à tristeza e à subjetividade deve fazer parte da bagagem de mão de qualquer um que esteja de passagem por este planeta – nem que seja para não usar. Felicidade completa e em tempo integral, criada no mesmo molde para todos, é destino que ninguém merece.

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