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Por que Viciamos em Determinadas Coisas?

Jogo Patológicojogador

É também um transtorno do controle dos impulsos, além de compulsivo.
| Dependências | Obsessões-Compulsões |

O Transtorno de Jogo Patológico vem ganhando importância crescente, proporcioal à sua prevalência que vem aumentado em diferentes países, principalmente DEVIDO à maior disponibilidade de jogos de azar. Além de apostas tradicionais como loterias, corridas de cavalos e jogos de carta, novos jogos têm sido introduzidos no mercado como casas de bingo, jogos eletrônicos e mesmo através da Internet.

No Brasil, as pesquisas sobre Jogo Patológico ainda são acanhadas e o tema ainda é tratado como certo tabu. Isso decorre, talvez, do fato de nosso país não ter tradição no setor de jogos. Aqui os jogos de azar tornaram-se mais acessíveis à população mais recentemente, depois da legalização do jogo de Bingo.

Em países onde a atividade é regulamentada há mais tempo, a observância do problema é bem mais intensa. O próprio setor que opera atividades de jogos tem a incumbência de bancar programas e entidades de prevenção e tratamento do Jogo Patológico. Nos Estados Unidos existe um excelente programa de Jogo Responsável (politicamente mais correto do que falar em Jogo Patológico), bancado pelos operadores de cassinos.

Embora se saiba há muito tempo que a atitude de jogar compulsivamente é uma séria alteração do comportamento, seu caráter mórbido ou patológico só foi considerado a partir de 1980. Nessa época o Jogo Patológico passou a ser classificado e reconhecido como transtorno psiquiátrico através de sua inclusão na classificação da Associação Americana de Psiquiatria (DSM.III, Manual Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais, 3ª. Edição).  Para esse manual de diagnóstico o Jogo Patológico pode ser definido como comportamento recorrente de apostar em jogos de azar, apesar de conseqüências negativas decorrentes dessa atividade. O indivíduo perde o domínio sobre o jogo, tornando-se incapaz de controlar o tempo e o dinheiro gasto, mesmo quando está perdendo.

Para a Organização Mundial da Saúde o Jogo Patológico passou a ser reconhecido como doença somente a partir de 1992 e, por definição, em linhas gerais, se caracteriza pela incapacidade da pessoa em controlar o hábito de jogar, a despeito de todos inconvenientes que isso possa estar proporcionando, tais como problemas financeiros, familiares, profissionais, etc.

Segundo a psicóloga Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira, do Ambulatório de Jogo Patológico da Unifesp, o jogo começa com pequenas apostas, normalmente na adolescência, mais freqüentemente entre os homens.

O Jogador
Para pessoas que não têm ou não conhecem o problema, a questão intrigante é a seguinte: o que leva a pessoa a ficar horas e horas envolvida com a mesma atividade de forma tão obsessiva?

Essa dúvida, como outras, do tipo: “- o que leva a pessoa a postar-se incansavelmente, durante horas, diante da uma mesa de cartas, da roleta, do bingo ou na frente de uma máquina eletrônica?“. Ou ainda: “que força misteriosa é essa que parece obrigar pessoas a analisarem seus sonhos para jogar no bicho, ou estudar o comportamento de cavalos nos diferentes tipos de terreno para fazer a melhor aposta possível?“, ainda não encontram respostas nos manuais de psiquiatria.

Neste sentido o jogador compulsivo pode ser comparado a um viciado em trabalho, ou em comprar compulsivamente, na obsessão pelo sexo, ou pela internet, ou em tantas outras atividades comportamentais que fogem ao controle. O jogador compulsivo tem reações parecidas aos alcoolistas ou dependentes químicos, tanto na sensação de prazer como no comportamento. Jogar, para essas pessoas, ativaria circuitos cerebrais que provocam um prazer semelhante ao das drogas, e a atitude geral do dependente do jogo, tal como nos casos de alcoolismo e drogas, acaba promovendo a exclusão de outras áreas da vida.

O intervalo de tempo entre começar a jogar e a perder o controle sobre o jogo varia de 1 a 20 anos, sendo mais comum num período de cinco anos. Maria Paula, citando Custer, descreve três fases no comportamento de jogar:

1. – Fase da Vitória:
Nessa fase a sorte inicial é vai sendo rapidamente substituída pela habilidade no jogo e as vitórias tornam-se cada vez mais excitantes. Aumenta a freqüência com que a pessoa procura o jogo e manifesta um otimismo não-realista. Os valores das apostas vão aumentando progressivamente e a perda passa a ser mais sofrível;

2. – Fase da Perda:
A característica dessa fase é o aumento de tempo e dinheiro gastos com o jogo, bem como o afastamento da família. Começa a perder. Agora, normalmente o dinheiro ganho no jogo é utilizado para jogar mais, podendo comprometer todo salário, economias e poupanças;

3. – Fase do Desespero:
A característica principal nesta fase é o aumento de tempo e dinheiro gastos com o jogo e o afastamento da família. Surge o pânico, uma vez que o jogador percebe o tamanho de sua dívida, seu desejo de pagá-la prontamente, o isolamento de familiares e amigos, a reputação negativa que passou a ter na sua comunidade e, finalmente, um desejo nostálgico de recuperar os primeiros dias de vitória.

É a percepção das conseqüências, e esses fatores pressionam o jogador a jogar ainda mais, na esperança de ganhar uma quantia que possa resolver todos esses problemas. Alguns passam então a utilizar recursos ilegais para obter dinheiro. Nessa fase, é comum a exaustão física e psicológica, sendo freqüente a depressão e pensamentos suicidas.

A Personalidade
Jogo Patológico
é um transtorno psiquiátrico ao qual se reputa importante participação de fatores de personalidade. A personalidade dos jogadores patológicos, bem como a personalidade de outras pessoas portadoras de Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, tem alguns traços em comum, principalmente a inclinação natural para a compulsão e impulsividade.

O jogador patológico é obstinado e perseverante, dificilmente aceita perder e diz que joga para se divertir. Na maioria das vezes essas pessoas aparentam ter dificuldade de prever conseqüências dessa compulsão, ou talvez neguem (como Mecanismo de Defesa) a eventual obviedade da situação desfavorável, fantasiando que subitamente a sorte haverá de mudar.

Nos casos de dependência franca o jogador faz cálculos absurdos das contas de apostas e não admite que esteja perdendo. Quando a pessoa começa a mentir para os familiares sobre estar ou não envolvida com o jogo é preciso procurar ajuda.

Ao perceber o tamanho de sua dívida o jogador ou jogadora pode se desesperar. Embora ele tenha vontade consciente de pagar suas dívidas, de recuperar a convivência familiar harmônica e a reputação junto aos amigos, não consegue controlar o impulso de jogar ainda mais. Nessa fase, por desespero, alguns jogadores ou jogadoras passam a utilizar recursos ilegais para obter dinheiro, ficam fisicamente exaustos e podem apresentar depressão e pensamentos suicidas.

Uma das principais características do Jogo Patológico é que, apesar das graves conseqüências que possa estar provocando, incluindo o risco de separação conjugal, demissão, graves perdas econômicas, envolvimento com a justiça, entre outros, os jogadores(as) têm muita dificuldade em controlar o impulso de jogar, em admitir a existência e o tamanho do problema e a pedir ajuda. É por isso que, normalmente, a aderência ao tratamento costuma pouca ou nenhuma.

Critérios diagnósticos
Não é tão simples detectar o Jogo Patológico, e menos simples ainda será considerá-lo um transtorno (Transtorno do Controle dos Impulsos). Primeiro, porque o jogador ou jogadora compulsiva tende a esconder e dissimular fortemente essa dependência, segundo, porque ele ou ela dificilmente reconhecerá a gravidade do quadro, mesmo quando alertado pelos demais. Em terceiro, porque a própria família subestima, dissimula ou nega o problema até o ponto onde ele se torna insustentável.

Além de tudo, como nossa sociedade está habituada a considerar dependência apenas os casos de alcoolismo ou uso de drogas, dificilmente se entenderá que o Jogo Patológico é também uma forma de dependência. Essa cegueira social se reforça diante do fato do jogador ou jogadora ser, comumente, uma pessoa psiquiatricamente normal nas demais áreas de sua atuação.

Há ainda um discurso complacente sobre o problema. É quando familiares ou mesmo o jogador ou jogadora diz que “afinal, ele(a) tem direito a um pouco de lazer, já que trabalha tanto, é bons marido (esposa), etc…”

Critérios Diagnósticos do DSM-IV para Jogo Patológico
1. – preocupação com jogo (preocupação com experiências passadas, especulação do resultado ou planejamento de novas apostas, pensamento de como conseguir dinheiro para jogar);
2. – necessidade de aumentar o tamanho das apostas para alcançar a excitação desejada;
3. – esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar;
4. – inquietude ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar;
5. – jogo como forma de escapar de problemas ou para aliviar estado disfórico (sentimentos de culpa, de desamparo, ansiedade, depressão);
6. – depois da perda de dinheiro no jogo, retorna freqüentemente no dia seguinte para recuperar o dinheiro perdido;
7. – mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo;
8. – cometer atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar o jogo;
9. – ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo;
10. – contar com outros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo.

 

Jogadores patológicos são caracterizados pela prática inveterada de jogos de azar que envolve apostas em dinheiro em geral, por exemplo, o bingo, cassino, cartas, loterias etc. Segundo a CID.10, que é a (Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde), a característica essencial do Jogo Patológico é um comportamento de jogo mal adaptativo, recorrente e persistente, que perturba os empreendimentos pessoais, familiares e/ou ocupacionais. A pessoa com esse transtorno pode manter uma preocupação com o jogo, tais como, planejar a próxima jogada ou pensar em modos de obter dinheiro para jogar.

A maioria das pessoas com Jogo Patológico afirma estar mais em busca de ação do que de dinheiro e, por causa dessa busca de ação, apostas ou riscos cada vez maiores podem ser necessários para continuar produzindo o nível de excitação desejado. Os indivíduos com Jogo Patológico freqüentemente continuam jogando, apesar de repetidos esforços no sentido de controlar, reduzir ou cessar o comportamento.

Através do reforço emocional intermitente, onde ganhar é um reforço positivo imediato e perder é apenas uma circunstância aleatória, o indivíduo apresenta o comportamento compulsivo de jogar. Ele está sempre na expectativa de ganhar, tal como, talvez, tenha acontecido anteriormente. Existe ainda uma sensação especial (emocional) no comportamento de risco, e que ocupa a mente do jogador fazendo que passe a repetir o comportamento (dependência).

Alguns autores sugerem que jogadores ou jogadoras patológicas ficam dependentes de uma sensação de euforia semelhante àquela induzida por drogas. Na prática, de fato, o Jogo Patológico tem sido considerado como uma dependência semelhante à dependência de álcool e drogas. Talvez seja por isso que um número considerável de jogadores patológicos tenha altas taxas de comorbidade com a dependência de álcool e outras drogas.

O jogo pode tornar-se uma grande fonte de prazer, podendo vir a ser a única forma de prazer para algumas pessoas, notadamente aquelas mais solitárias e desencantadas com seu entorno social ou familiar. Entretanto, o jogador ou jogadora compulsiva costuma se tornar inconseqüente, gastando aquilo que não tem e perdendo a noção de realidade.

Epidemiologia
Calcula-se que nos EUA, na Inglaterra e na Austrália o problema atinja entre 1 e 4% da população geral e, segundo Marcelo Fernandes, psiquiatra do Ambulatório do Jogo Patológico da Unifesp, “em cidades com alta concentração de casas de jogo, como Las Vegas, por exemplo, esse número salta para 8,7% da população adulta.”

Na população com média de idade de 18 anos foi detectado Jogo Patológico em 5,7% dos rapazes e em 0,6% das moças, resultando numa relação de 9,5 homens para cada mulher. Já na idade média de 22,3 anos essa proporção foi o dobro, ou seja, de 4 homens para cada mulher (Ladouceur, 1991, 1994).

Não há prevalência do Jogo Patológico em determinada faixa etária, mas o diagnóstico de jogadores patológicos existe desde o início da adolescência até a terceira idade”, explica a psiquiatra Sílvia Saboia Martins.

Pesquisas de Hermano Tavares mostraram que cerca de 20% dos jogadores patológicos são dependentes de álcool, 62% são tabagistas e 50% deles estão desempregados. Daniela Sabbatini da Silva Lobo e Sílvia Sabóia constatam que quando essas pessoas começam a jogar são, na maioria das vezes, bem realizadas profissionalmente. Outra constatação dela é a de que mulheres se viciam nos jogos de 2,5 a 4 vezes mais rapidamente que homens.

Entre as complicações associadas ao jogo, Strachan e Custer relacionaram tentativas de suicídio (23%), alcoolismo (10%), dependência de drogas ilícitas (23%) e dependência de drogas lícitas (15%). Eles relataram também que 10% das mulheres se prostituíam com fim exclusivo de obter dinheiro para jogar. Não foi feita comparação com homens jogadores.

Ainda se crê que o Jogo Patológico seja claramente mais comum entre os homens, porém essa posição vem sofrendo mudanças continuamente. Tem havido um expressivo aumento de mulheres com problemas de Jogo Patológico, assim como ocorre em relação à dependência de álcool e de outras drogas.

Talvez isso se deva às mudanças no papel social das mulheres, entre outros eventos sócio-culturais. Em nosso meio a legalização do Bingo, entendido pela população como forma segura e inofensiva de diversão, pode ter contribuído para o aumento desse transtorno entre as mulheres.

Entre os estudos sobre mulheres jogadoras, Strachan e Custer mostraram, em 52 mulheres jogadoras Las Vegas, em 1989, que a etnia caucasiana aparecia em 83%, sendo 76% delas com idade entre 30 e 49 anos, a maioria casada (67%) e com filhos (75%), com segundo grau completo (74%). A quase totalidade jogava videopoker (90%).

Apesar da maioria dos estudos sobre jogadores compulsivos ou patológicos ser dirigido para uma população eminentemente masculina, calcula-se que pelo menos um terço deles sejam mulheres, conforme veremos mais adiante.

Pesquisa realizada em São Paulo entre jogadores ou jogadoras que procuraram tratamento, também se observou que é crescente o número de mulheres que jogam. Mesmo assim, a maioria de jogadores compulsivos ainda é do sexo masculino, tem cerca de 40 anos de idade, casado, trabalha e tem grau de escolaridade elevado (Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira).

No Jogo Patológico freqüentemente há associação com outros transtornos psiquiátricos, notadamente com outros transtornos do humor, de ansiedade, dependência de álcool e outras drogas. Entre os homens jogadores a comorbidade com transtornos afetivos varia entre 21 a 60%, segundo metanálise de Silvia Sabóia Martins. Há ainda uma porcentagem de casos que apresentam comorbidade com dependência de substâncias, variando de 25 a 65%.

Estatísticas em outros países mostram que há uma prevalência de Jogo Patológico é estimada entre 1 e 4% da população geral (EUA e Canadá). No Brasil ainda não existem dados seguros sobre a situação, mas, devido à popularidade crescente dos jogos computadorizados e das casas de bingo, alguns indicativos já podem ser preocupantes.

Para se ter uma idéia, em 1998 o bingo era o jogo de preferência em 65% dos jogadores ou jogadoras compulsivas e, em 2001, essa preferência saltou para cerca de 90% (Maria Paula de Oliveira), deixando as loterias, vídeo-pôquer, turfe e caça-níqueis em segundo plano na preferência dos jogadores.

Talvez a preferência pelo bingo tenha uma conotação cultural, ou seja, reforçada por haver maior aceitabilidade social do bingo em relação à outros jogos, tendo em vista a forma amadora, recreacional ou como atividade beneficente.

Genética
Na observação leiga e cotidiana notamos, com assombrosa freqüência o quanto existe de concordância de alcoolismo em uma mesma família. Em relação à compulsão para o jogo também observamos essa concomitância, porém, em nível muito menor.

Silvia Sabóia Martins, Daniela Lobo e Hermano Tavares comentam sobre padrões de herança genética de dependentes de droga e jogadores patológicos. Essa questão ainda não está estabelecida. Analisaram 3359 pares de gêmeos, verificando que fatores familiares (genéticos e ambientais) explicam 56 a 62% da ocorrência de Jogo Patológico, havendo indícios significativos de ocorrência familiar do transtorno. Em gêmeos idênticos (monozigóticos) a concordância do problema foi de 22,6%, enquanto que nos não-idênticos (dizigóticos) essa ocorrência foi de apenas 9,8%. Na população geral a prevalência é muito menor, conforme vimos acima.

Alguns autores, como Sharpe (1995), sugerem que jogadores patológicos ficam dependentes de uma sensação de euforia semelhante àquela induzida por drogas. Desta forma, o jogo patológico tem sido conceituado como uma dependência semelhante à dependência de álcool e drogas. (Moran – 1970; Lesieur -1993).

Classificações
Quanto os graus de envolvimento do impulso de jogar, os jogadores podem ser classificados em três tipos:

– Eventuais (que jogam na loteria quando os prêmios estão acumulados);
– Sociais (jogam uma vez por mês com amigos) e;
– Patológicos (jogam semanalmente e deixam o jogo interferir na sua vida).

Quanto ao tipo de jogo, Simone Carvalho (2005) mostra serem eles, em ordem decrescente: cartas (78,6%), bingo (78,6%), loteria (71,4%) e jogos de habilidade (71,4%) foram praticados com maior freqüência.

Cabe aqui uma definição clara do problema. Por mais que algumas pessoas achem que o jogador faz isso porque não tem responsabilidade, não se preocupa com sua família e até mesmo não se importa com o que pensam sobre suas atitudes, na verdade ele o faz por conta de um distúrbio que compromete o controle dos impulsos.

Portanto, o Jogo Patológico é oficialmente classificado como comportamento compulsivo, como dependência e encontra-se entre os Transtornos do Controle dos Impulsos Não Classificados em Outro Local no DSM-IV, e entre os Transtornos de Hábitos e Impulsos na CID-10.

 

Tratamento
Como todas as patologias emocionais que envolvem a volição (vontade), o Jogo Patológico é muito difícil de ser tratado, mas essa dificuldade não desautoriza as iniciativas de controle e tratamento. Todas as dependências envolvem a volição, assim como os tiques, o TOC e demais quadros considerados na categoria dos Transtornos do Espectro Impulsivo-Compulsivo.

Refletindo sobre a questão do tratamento em psiquiatria, de fato, é fortemente desestimulante e preditivo de que o tratamento será possivelmente infrutífero, quando o paciente diz “não consigo”, ou “não gosto”, ou “tenho horror de fazer isso”. Essas atitudes refletem a vontade do paciente (volição), uma das únicas áreas do psiquismo que não são influenciadas pelos medicamentos. Até a disposição geral pode ser modificada por, por exemplo, antidepressivos, mas a essência da vontade humana não.

Primeiramente, como em quase todos tratamentos psiquiátricos (exceto no caso das psicoses), uma das premissas básicas é a pessoa reconhecer que precisa de ajuda, reconhecer que não tem mais controle sobre seu comportamento quando joga.

O paciente deve reconhecer, com muita franqueza, que não tem controle sobre sua situação econômica, que precisa contar com familiares ou amigos para cuidar de suas finanças, para poder pagar suas dívidas.

Devem ser procurados programas de tratamento específico para jogo patológico (normalmente em universidades), ou consultar periodicamente profissionais capacitados, ou ainda, freqüentar reuniões de grupos de auto-ajuda como os Jogadores Anônimos.

Jogadores Anônimos é um grupo de orientação e apoio a jogadores compulsivos, e vem realizando um excelente trabalho para atender a essa patologia, e os êxitos são marcantes. A entidade está presente em praticante todas as capitais brasileiras e em muitas cidades do interior do país (no total, entre 40 e 50 grupos). O atendimento é gratuito e se baseia em reuniões periódicas, onde pessoas que já passaram pelo problema dão apoio aos recém-chegados. Segundo números da entidade, as pessoas que se recuperam continuam freqüentando o grupo, por entender que as recaídas podem levá-las de volta ao bingo, ao jóquei ou a modalidades do jogo compulsivo, inclusive as loterias oficiais ou ao jogo do bicho. Aliás, muitos acham que as loterias e o jogo do bicho não são viciantes, mas para o jogador compulsivo, qualquer tipo de disputa que envolva dinheiro pode levar à compulsão.

O tratamento do Jogo Patológico envolve, como sempre, uma avaliação do paciente, podendo ser necessário o uso de medicamentos, uma vez que a depressão nesses casos é bastante comum, inclusive há alta incidência de ideação suicida.

Apesar dos programas de atendimento terem um sucesso satisfatório no controle do problema, mais ou manos na mesma proporção dos grupos voluntários e dos programas oficiais para alcoolistas, até o momento não se descobriu uma cura definitiva para o Jogo Patológico. Alguns serviços de psiquiatria, notadamente aqueles em ambiente universitário, também têm se utilizado de psicoterapia de grupo, com o propósito de auxiliar o jogador a sair do isolamento em que se encontra.

Assim sendo, a alternativa mais viável, até o momento, é o apoio psicológico e as terapias de grupo para que as pessoas com o mal possam superar a fase de fissura pelo jogo e entender que não poderá mais voltar a uma mesa para jogar, mesmo de “brincadeira”, por conta do risco de recaída.

Para referir:
Ballone GJJogo Compulsivo ou Patológico, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2006

 

 

 

 

Referências
American Psychiatric Association
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Third edition. Washington, DC, 1980.

Carvalho SVB, Collakis ST, Oliveira MPMTFrequency of pathological gambling among substance abusers under treatment. Rev. Saúde Pública, Apr. 2005, vol.39, no.2, p.217-222.

Ladouceur R, Dubé D, Bujold APrevalence of Pathological gambling and related problems among college students in the Quebec metropolitan area. Canadian Journal of Psychiatry, 1994; 39 (5): 289-293.

Ladouceur R Prevalence estimates of pathological gambling in Quebec. Canadian Journal of Psychiatry, 1991; 36: 732-734.

Lesieur HR, Blume SBPathological gambling, eating disorders and the psychoactive substance use disorders. Journal of Addictive Disorders, 1993; 12: 89-102.

Lesieur HR, Cross J, Frank M et al. – Gambling and pathological gambling among university students. Addictive Behaviours, 1991; 16: 517-527.

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Martins SS, Lobo DSS, Tavares HJogo patológico em mulheres: uma revisão. Rev. Hosp. Clin., set./out 2002, vol.57, no.5, p.235-242.

Moran EGambling as a form of dependence. British Journal of Addiction, 1970; 64: 419-428.

Shaffer HJ, Hall MN, Vander Bil T JEstimating the prevalence of disordered gambling behaviour in the United States and Canada: a research synthesis. American Journal of Public Health, 1999; 89 (9),1369-1376.

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Strachan ML, Custer RL Female compulsive gamblers in Las Vegas– In: Eadington WR & Cornelius JA (Eds). Gambling Behaviour & Problem Gambling (Reno NV, Institute for the Study of Gambling and Commercial Gaming ), 1993. pp. 235-238.

Tavares HJogo Patológico e suas relações com o espectro impulsivo-compulsivo, tese de doutorado, Faculdade de Medicina da USP, data da defesa 28/11/2000, disponível na internet em /teses/disponiveis/5/5142/tde-16072002-135615, consultado em 2006.

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