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Dieta ‘mais ou menos saudável’ é opção sem tantas restrições

Dietas que prometem rápido emagrecimento surgem a todo momento, mas elas não explicam os prós e os contras das restrições alimentares que indicam. Excluir do cardápio grupos alimentares – proteínas, gorduras ou carboidratos, por exemplo – pode até levar à perda de peso, mas não favorece a saúde. Assim, especialistas em nutrição estão defendendo uma dieta “healthy-ish” (mais ou menos saudável, traduzido do inglês).

“Se você come regularmente alimentos saudáveis, como verduras, legumes e frutas, e se movimenta, não há problema nenhum em querer sair com os amigos, tomar uma cerveja e comer um tira-gosto ou optar por um chocolate na manhã de domingo. Comer tem que ser algo que faça bem à mente, não apenas ao corpo”, defende a médica nutróloga Ana Beatriz Rios, membro da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

Ou seja, de acordo com a especialista, é perfeitamente possível equilibrar boa alimentação, prática de atividade física e o “luxo” de comer coisas de “fora do cardápio”, mas sem exageros. “São três conceitos básicos que devem estar em qualquer alimentação: a moderação, a proporcionalidade e a adequação. São eles os responsáveis pela sensatez entre a saúde, o bem-estar e o prazer do paladar”, explica.

Ana Beatriz destaca que essa flexibilidade ajuda também no processo de reeducação alimentar. “Esse equilíbrio incentiva a pessoa a ser ‘fiel’ à rotina de alimentação adotada. Isso diminui as chances de uma sabotagem e de um prejuízo alimentar num possível efeito sanfona”, assegura a especialista.

Foi o bom senso na alimentação que fez a nutricionista Raquel Righi perder mais de 50 kg em menos de três anos. “Quando me vi aos 31 anos pesando 130 kg, caí em mim. A partir de então, passei por uma reeducação alimentar que não era 100% restritiva”, revela.

Raquel conta que durante a semana equilibrava os alimentos com a prática de exercícios físicos e, aos fins de semana, se dava a liberdade de comer algo de fora do cardápio. “Uma taça de vinho ou um pedaço de pizza não eram prejudiciais. Pelo contrário. Já preparava o cardápio semanal pensando no sábado e no domingo. O ato de comer precisa ser prazeroso, mas, é claro, sem exageros dos dois lados”, acredita.

Ela considera ainda que a privação em excesso gera compulsão e culpa de comer algo “errado”. “Se você se sente culpado, se arrepende e acaba exagerando na comida”, reflete.

Contraponto. Por outro lado, a endocrinologista Janaína Koenen, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), considera que, para flexibilizar o cardápio, é preciso estar em harmonia com o peso. “Dar-se o direito de comer algo gostoso, mas pouco nutritivo, vale para as pessoas que estão bem com a balança, por algumas vezes. Aquelas que estão em processo de emagrecimento ou com o cardápio restrito por causa de doença devem evitar (sair da dieta)”, afirma.

Ela ressalta que esse período restritivo não é para sempre, mas que desvios devem ser acompanhados por um profissional, para que os efeitos já conquistados não sejam comprometidos.

Janaína aponta ainda para as falsas promessas das dietas “milagrosas”. “Não existe mágica, muito menos na alimentação. O equilíbrio reside naquilo que faz sentido, que não parece absurdo. Dietas que prometem resultados em pouquíssimo tempo podem estar na boca das pessoas, mas somem logo depois e se mostram ineficientes”, aponta.

Corpo. Uma pesquisa da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, revelou que praticar 30 minutos de caminhada por dia é suficiente para fazer com que o corpo de um adulto normal seja beneficiado.

Qualquer pessoa que tem uma alimentação saudável pode incluir alimentos considerados não nutritivos sem acompanhamento especializado?

Existem alguns grupos (de pessoas) que não devem ingerir determinados alimentos sem orientação profissional, principalmente os industrializados e ricos em carboidratos. Os principais exemplos são os obesos que estão em processo de emagrecimento, os diabéticos e aqueles que têm intolerância ao glúten.

O que isso pode acarretar?

No caso dos obesos, um ganho de peso não programado, retrocedendo no emagrecimento. Quanto aos diabéticos e aos intolerantes ao glúten, pode haver uma piora no quadro que eles apresentam.

Como essas pessoas podem usufruir do prazer alimentar?

Há várias opções. Entre elas está o consumo de pães que não levem farinha de trigo na receita, mas farinha de linhaça ou de coco. Eles não são muito baratos, mas compensam na quantidade porque saciam mais a fome. Outra forma é substituir o açúcar por banana em uma receita de bolo: é mais saudável e até mais gostoso.

Qual o critério mais importante na busca do equilíbrio? 

Dar o primeiro passo sabendo que a conquista é gradativa, mas completamente possível.

JORNAL  O TEMPO – PUBLICADO EM 29/06/17 –

A serventia do encantamento no dia a dia

O cotidiano está cheio de descobertas e prazeres, mas precisamos saber reconhecê-los. Isso nos ajuda a ter uma vida mais feliz e a encontrar poesia onde antes parecia existir apenas cinza

Há pouco tempo soube pelos jornais que apareceria uma superlua e que ela seria a maior de todas em 68 anos. Será mesmo? Não tenho medidor de lua, mas a manchete de um portal dizia assim: “Quer registrar a superlua de hoje no seu celular? Veja aqui dez dicas”. Dez dicas para ver da mesma forma o que todo mundo acha que está vendo? Registrar a Lua no celular, em vez de olhar na cara dela? Que cansaço me deu pensar em selfies lunares… A Lua é super todos os dias, mesmo quando não usa capa nem ganha manchetes nos jornais. É só botar reparo nela. Porém, para isso precisamos reaprender a sentir sem pressa tudo o que está à nossa volta. E, apesar de todos os embrutecimentos que nos cercam, acho que passar o dia todo sem ver, sem escutar, sem provar, sem cheirar, sem tocar o mundo, e sem permitir que ele nos toque, nos afete, nos desarrume por dentro, é viver sem sentido nenhum. Nesse sentido, há mais de 20 anos, tenho viajado por todas as regiões do Brasil para falar da serventia do encantamento na vida da gente. Um dia, eu rabiscava algo sobre isso, antes de uma viagem. Dentro do avião, vi que quase todas as pessoas conversavam ao telefone, mandavam mensagens, batiam fotos, balançavam a cabeça com seus fones no ouvido. Mas não me senti tão sozinho quando reparei que uma mulher escrevia a lápis em uma folha de papel almaço e parava para contemplar o movimento dos passageiros e das comissárias. Nem sabia que ainda existem pessoas que escrevem a lápis em folhas de papel almaço. Senti vontade de saber o que ela tanto escrevia enquanto olhava, e o que tanto olhava enquanto escrevia. Entretanto, na maioria das vezes, imaginar me tenta ainda mais do que saber. Para dar um pouco de descanso na imaginação, olhei pela janela, mas quase tive um troço quando li o que eu já havia lido tantas vezes, sem parar para refletir. Estava escrito lá: NÃO PISE NA ASA. E eu não sabia o que fazer com aquela perturbação. Afinal, eu pensava, para quem será que escreveram um aviso tão desatinado? Para um pelicano alfabetizado? Para um anjo leitor? Para uma alienígena viciada em pisadas de asa? Pensei em pedir à aeromoça que clareasse o meu tormento, mas achei que ela também poderia entrar em parafuso e espalhar desnorteio entre os passageiros. Ao meu lado, um homem fotografava a própria tela do computador, e a tela estava cheia de gráficos ainda mais assustadores que aviso para pelicano. Então tive mesmo que conviver sozinho com aquela frase, até o avião pousar. Dias depois, jantando com um velho amigo, perguntei se já havia reparado naquela história de não pisar na asa, e ele, rindo da minha angústia, me explicou: “Rapaz, não é possível que você não saiba… esse lembrete é para os caras da manutenção não pisarem naquele local específico, enquanto estiverem trabalhando”. Naquele momento, disse ao meu amigo: “Muito obrigado, você acaba de pisar na minha asa”. Esse episódio me leva a um poema do Mario Quintana chamado Crenças, publicado no livro Velório sem Defunto (Alfaguara). “Seu Glicínio porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego / É uma crença que ele traz da sua infância. / Não o desiludas com o teu vão saber. / Não o esclareça dos seus queridos enganos. / Não se deve tirar o brinquedo de uma criança. / Tenha ela oito ou oitenta anos.” Seu Glicínio porteiro me faz pensar: para que servem essas explicações de tirar brinquedo? Qual o gosto de passar uma caneta vermelha na fantasia alheia? Quantas vezes será que pisamos na asa de alguém com o nosso vão saber? Na realidade, mais do que tudo, acho que só tiramos o brinquedo de alguém quando não conseguimos enxergar a nossa própria asa, tão atrofiada por falta de uso. E, se não enxergamos a nossa própria asa, como vamos enxergar a asa do outro? Quantas vezes também será que nós pisamos, abrindo mão dos nossos desejos mais simples, mais legítimos, mais autênticos? No rastro dessas perguntas, há dois anos, passei uns dias com o meu filho, Gabriel, em Buenos Aires, capital portenha. Chegamos lá com roteiros que amigos nos fizeram de tudo o que não poderíamos deixar de conhecer, e realmente conhecemos lugares deliciosos, mas gostamos ainda mais de nos perder pela cidade, flanando, sem roteiros, sem mapas, de café em café, de uma praça a outra, de cena em cena, de pessoa em pessoa. Foram dias feitos de conversas, sentidos, silêncios, reparos. E, no meio
de um desses reparos, quando estávamos prestes a fazer um passeio de ônibus pela cidade, escutamos um casal que conversava atrás de nós. Palavras da mulher, enquanto entrávamos no ônibus: “Ai, que cheiro de flor… Não gosto de cheiro de flor”. Ao meu lado, já sentado, Gabriel comentou a frase: “Dizer que não gosta de cheiro de flor é o mesmo que dizer que não gosta de vida, não acha? Para mim, foi pior que se ela dissesse: ‘Eu detesto cheiro de flor’. Eu acho que não gostar é pior que detestar”, me disse o meu filho, na época com 14 anos. Concordei com ele. Se ela dissesse que detesta cheiro de flor, poderia estar num mau dia, aborrecida por algum acontecimento, movida por alguma emoção de destrambelhar lucidez. Mas ela só disse que não gostava, com tranquilidade, sem raiva, sem escândalos, simplesmente como quem diz que não gosta de vida. “Não gosto de cheiro de flor”, a frase despetalava minha ideia, enquanto descíamos para ver a Plaza de Mayo e escutávamos mais resmungos da mulher e também do homem que estava com ela. “Meu Deus, que frio, meu Deus, como as coisas estão caras, meu Deus, que demora para descer do ônibus” – eles diziam. E eu pensava: meu Deus, por que não olham pela janela, meu Deus, por que não beijam na boca, meu Deus, por que não param de amolar Deus e aproveitam o dia? À noite, deitado na cama, fiquei pensando ainda mais. Quem sabe o cheiro das flores joga na cara daqueles dois toda a vida que eles não vivem? De fato, não é fácil sentir cheiro de vida perdida. Ah, o casal era também nosso vizinho de porta, no hotel. Não fomos de excursão, mas compramos o mesmo pacote que ambos. Sim, eles tinham o mesmo pacote, mas uma forma tão diferente de desembrulhá-lo… Depois que constatei isso, tive vontade de mandar para eles uns alfajores, um vinho e um texto pervertido da (escritora francesa) Anaïs Nïn, para ver se aqueles dois conseguiam encher a cara de sonho, mas não deu tempo. No dia seguinte, eles já estavam de malas nas mãos, partindo para outro lugar. E, antes de seguir para o café da manhã e comer todas as rodelas de pomelo rosado (toranja) do hotel, enquanto via que as malas do casal eram iguais
e tinham a mesma cor, uma pergunta ficou me perturbando: o que vai na bagagem de quem não gosta de cheiro de flor? Há umas semanas, essa história me veio à memória, quando almocei no Biscui, restaurante que dá cheiro de flor ao meu dia. Sentada à minha frente, uma moça pediu ao gentil garçom Fábio: “Por favor, eu gostaria de uma água com gás e um pouco de gelo espremido… Me desculpe, gostaria de um limão espremido”, ela se corrigiu. E eu pensava, não se desculpe por essa beleza que você acabou de criar, não se desculpe, que eu vou passar a vida com inveja de você por nunca antes ter feito esse pedido. Na saída, a moça estava ao meu lado, na fila do caixa. Perguntei o seu nome, falei da minha inveja incontida, revelei que eu contaria essa história numa crônica, e ela riu da própria criação. “Foi sem querer que eu disse isso, mas logo depois eu vi que um gelo espremido não tinha sentido”, constatou a Meli. Não sei se é assim que se escreve o seu nome. Só sei que disse a ela que as coisas mais belas muitas vezes nascem sem querer e que a poesia não é para ter sentido. A poesia, que está disponível para nós, à nossa volta, é para provocar os sentidos, eu diria hoje à Meli, que depois saiu do restaurante puxando uma mala de rodinhas. Para onde a poesia mais me puxa? Por onde eu mais gosto de puxá-la? Para onde a vida mais tem puxado a Meli? Depois daquela experiência, fiquei com urgência de ir a um restaurante, só para puxar uma cadeira e pedir um copo de gelo espremido. Pensar em gelos espremidos me deu desejo de reler uma entrevista que fiz na década de 90 com o (escritor) Manoel de Barros, por conta do seu livro Exercícios de Ser Criança (Salamandra). Nessa entrevista, o poeta me disse que criar imagens e metáforas é uma maneira de aumentar o mundo e me explicou por que as crianças sabem fazer isso tão bem. “Se digo que me enferrujei de lata, criei uma coisa nova. Criei um ser humano que fica enferrujado, que nem um prego. As crianças criam essas imagens porque ignoram prescrições e regulamentos do sério. A criança não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras, e assim por diante. Ela não sabe se pedra tem aflição, por isso cria”, me escreveu o Manoel, à máquina, com remendos feitos à mão. Por que será que pensar em remendos feitos à mão me amansa tanto e me dá tanta gana de desordem? “O gosto pela liberdade se manifesta nas desobediências. Andar de costas na chuva é sinal de liberdade”, Manoel também me disse nessa entrevista. Na praça perto de casa, em Copacabana, num fim de tarde, vi uma menina de 6 anos que andava em zigue-zague, seguindo os desenhos das pedras, ou as aflições delas, quem sabe? Mas logo a mãe pisou na asa da filha: “Anda direito, Marcela!” E a menina passou a andar em linha reta, sem curvas, sem surpresas, sem criar imagens, de cabeça baixa. Que cena… Será que a Marcela jamais vai andar de costas na chuva? Tomara que ande, tomara que ande. Imagino a Marcela daqui a 30 anos fazendo um curso para reaprender a entortar os passos, subverter mesmices, viver e trabalhar com criatividade e honestidade intelectual. Acho que só quando desobedecemos é que criamos algo realmente nosso e exercitamos a nossa autenticidade. Também acredito que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas que toda pessoa feliz, de alguma forma, é autêntica. No entanto, por medo de sermos rejeitados, criticados, corrigidos, censurados e esquecidos, passamos a vida presos a regulamentos do sério, abrimos mão dos nossos zigue-zagues mais íntimos, e deixamos de olhar, agir e pensar com originalidade. É assim que nos afastamos da fantasia e de tudo o que ela tem de mais humano, transformador, apetitoso, revelador, essencial. “PARE, OLHE, ESCUTE”, me manda a placa da estação ferroviária, à beira de um trilho, numa cidade do interior de São Paulo onde estive outro dia. Num mundo cada vez mais cheio de pressa, olhos embaçados, ruídos, e cobranças pragmáticas, obedecer à placa de uma pequena estação de trem é uma transgressão irresistível.
 Crédito: Vida Simples Digital; MÁRCIO VASSALLO; 10/07/2017.

Depressão não é sinônimo de tristeza

Acontece nas melhores e nas piores empresas. O colega é motivado, esperto, capaz de agir rápido. Encontra belas soluções para os maiores desafios e sempre cumpre prazos. Não tem preguiça. Veste o figurino do mundo corporativo e circula em ambientes refrigerados, mas faz o estilo Capitão Nascimento: “Missão dada é missão cumprida”.

Até que, sem razão aparente, começa a sentir dificuldades de concentração. Uns esquecimentos aqui e ali. Não consegue mais planejar e tomar decisões como antes. Os colegas acham que ficou acomodado. Criam a versão que lhes parece mais conveniente e espalham o veneno: “Mais um espertinho fazendo corpo mole”.

O chefe interpreta a nova postura como falta de comprometimento. Conclui que ele não veste mais a camisa da empresa e o inclui rapidamente na lista dos que, em breve, serão “promovidos ao mercado”.  Quem sofre não sabe o que tem, mas sabe que alguma coisa está errada. Uma colega observadora desconfia de depressão. Ninguém a leva a sério. “Como ele pode estar deprimido se conversa, brinca, sorri? Quem está deprimido fica triste, resmunga, chora no banheiro”, diz alguém.

Esse é um roteiro bem conhecido pelos especialistas em saúde mental. Frequente nas empresas, mas raramente administrado como se deve pelos gestores. Depressão não é sinônimo de tristeza. Nem sempre a tristeza é o principal sintoma. Às vezes, o que aparece são as dificuldades cognitivas já mencionadas ou só perda de prazer.

Qual é o impacto da depressão no ambiente de trabalho no Brasil? Até recentemente pouco se sabia a respeito. Os resultados da maior pesquisa sobre o tema, divulgada em primeira mão nesta coluna, dão pistas importantes.

Mil adultos com idades entre 18 e 64 anos, trabalhadores ou gestores em empresas instaladas no país, preencheram questionários detalhados pela internet. A pesquisa faz parte de um estudo já realizado em vários países da Europa, com financiamento da empresa farmacêutica Lundbeck.

No Brasil, a análise dos resultados ficou a cargo de Clarice Gorenstein, professora do departamento de farmacologia da Universidade de São Paulo (USP), e do médico Wang Yuan-Pang, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

“Ainda existem muitos estigmas em relação à doença, seus sintomas e suas consequências”, diz Clarice. “Os gestores não se dão conta da magnitude do prejuízo que a depressão pode causar à produtividade dos empregados e, consequentemente, à produtividade da empresa.”

Os principais resultados:

• Quase 20% dos entrevistados afirmaram já ter recebido diagnóstico de depressão
•  33% dos que tiveram depressão precisaram se ausentar do trabalho em algum momento
• 53% disseram conhecer alguém no ambiente de trabalho que teve depressão
• Depois do período de afastamento por depressão, as mulheres voltam ao trabalho, em média, depois de 56 dias
• Os homens demoram mais. Voltam depois de 80 dias.

“Os homens costumam resistir à ideia de procurar um médico”, diz Wang. “O tratamento começa quando a situação já se agravou e, por isso, eles demoram mais a voltar ao trabalho depois do afastamento.”

Apenas uma em cada dez pessoas reconhece que indecisão, esquecimento e dificuldade de concentração podem ser sinais de depressão. Apesar do desconhecimento em relação a isso, 53% das pessoas que tiveram depressão afirmaram ter sentido um ou mais desses sintomas.

Entre os gestores, o despreparo é notável. Eles são muito preocupados com metas, mas dão pouca atenção às condições emocionais dos subordinados – apesar disso ser uma séria ameaça aos resultados perseguidos.

Gestores que sabem lidar com gente são joias raras. Na pesquisa, a maioria disse que as empresas têm recursos para lidar com a depressão, mas eles sentem falta de apoio formal. Ou seja: não há programas e políticas internas para lidar com o problema.

“No estudo, verificamos que poucos gestores reconhecem a indecisão e a falta de concentração como sintomas de depressão”, diz Clarice. A maioria não faz essa relação.

O que, afinal, causa a depressão? Problemas na família? Trânsito? Violência? Ou o próprio trabalho? A depressão do sujeito foi disparada pelo chefe ou pelo casamento ruim? Pelo assédio moral na empresa ou por sua condição sócio-econômica?

Nos casos em que o sofrimento é decorrente do ambiente de trabalho é sempre difícil estabelecer aquilo que os juristas chamam de nexo causal, mas não é impossível. Aqui o  psiquiatra e médico do trabalho Duílio Antero de Camargo explica como fazer isso.

Duilio é um especialista no fenômeno do presenteísmo – aquela situação em que o funcionário não falta ao trabalho, mas trabalha doente.

A coisa é mais ou menos assim: a pessoa trabalha num ritmo insano, enfrenta pressões e acostuma-se a ouvir reclamações constantes da chefia em reuniões constrangedoras. Passa anos nesse ritmo como se esse fosse o ambiente natural de sua profissão. Não reclama, por medo de perder o emprego ou porque não quer ser considerado um fraco.

Até que um dia os problemas emocionais começam a aparecer. Pode ficar ansioso, meio deprimido ou sentir medo. Se isso durar um dia ou outro e não atrapalhar a vida do sujeito, significa que ele ainda não está sofrendo de uma doença psiquiátrica.

Se a ansiedade, a depressão e o medo perdurarem e começarem a provocar problemas físicos (taquicardia, hipertensão, dores de cabeça, insônia, por exemplo) pode ser o sinal de que um transtorno mental está instalado.

Esse é um terreno fértil para uma série de males, entre eles transtorno do pânico, depressão, transtornos do sono, síndrome de burnout (esgotamento total) etc.

Quem preza a própria saúde precisa perceber o que está em jogo. Será que vale a pena competir, suportar todas as pressões, conquistar um salário invejável e depois torrá-lo no psiquiatra?

“Metas cada vez mais difíceis e todo tipo de pressão leva ao adoecimento”, diz Camargo. “Quanto mais falamos sobre o assunto, mais as pessoas têm condições de fazer uma autocrítica sobre as situações que estão vivendo.”

Esse é o valor dessa pesquisa. Ela quantifica algo que estava no ar, flutuando no espaço dos temas incômodos, das verdades que poucos gostam de assumir.

Agora o quadro está claro. Abaixo alguns dos sinais de depressão. Há vários outros. Alguns podem aparecer, outros não.

* Distúrbios do sono
* Falta ou aumento do apetite
* Cansaço
* Diminuição da libido
* Tonturas, palpitações ou mal-estar constante

* Impaciência
* Perda do senso de humor
* Tristeza
* Dificuldade de tomar decisões
* Medo, angústia, insegurança

* Baixo nível de concentração
* Expectativas negativas
* Avaliação negativa de si mesmo, do mundo e do futuro
* Perfeccionismo
* Tendência ao isolamento

Por Cristiane Segatto, 2 de julho de 2017.

TEXTO ORIGINAL DE ÉPOCA

A VONTADE DE TER AUTOCONTROLE PODE DIMINUIR… SEU AUTOCONTROLE

O autocontrole é um atributo valioso para quem quer alcançar qualquer objetivo, seja manter uma dieta, economizar dinheiro ou se tornar uma pessoa mais focada no trabalho. Sua importância, na verdade, é muito mais antiga do que qualquer uma dessas situações: ela foi (e continua sendo) uma vantagem evolutiva fundamental para que os humanos pudessem passar a viver em sociedade.

Assim, é natural prezar por essa capacidade – e não faltam métodos para ajudar a desenvolvê-la. Mas aí é que vem a grande ironia: querer ter mais autocontrole pode diminuir nossa capacidade de exercê-lo, independentemente de quão controlados nós sejamos.

Os responsáveis pela descoberta foram Liad Uziel, do Departamento de Psicologia da Universidade Bar-Ilan (em Israel), e Roy F. Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, considerado um dos principais pesquisadores do autocontrole no mundo (e um dos mais citados de todos os tempos na psicologia social).

“O autocontrole é uma capacidade humana altamente adaptativa. Considerando que os seus benefícios estão bem documentados, pouco se sabe sobre o impacto de querer desenvolvê-lo”, diz o estudo, publicado recentemente no Personality and Social Psychology Bulletin, periódico oficial da Sociedade de Personalidade e Psicologia Social.

Para entender melhor a questão, os autores realizaram quatro experimentos. Neles, um total de 635 voluntários deveriam realizar tarefas que exigiam muito ou pouco autocontrole. Em alguns dos estudos, o já existente desejo de autocontrole dos participantes foi medido (foi criada uma escala específica para medir isso); em outros casos, esse desejo foi manipulado: as pessoas deveriam pensar nos benefícios de ter mais autocontrole e então realizar a tarefa proposta.
O culpado de tudo

O primeiro e o segundo estudos mostraram que ter um forte desejo (manipulado ou não) de autocontrole prejudicou o desempenho dos voluntários em uma tarefa exigente (ou seja, que exigia mais desse autocontrole), mas não em uma tarefa simples.

Os estudos 3 e 4 mostraram a razão por que isso acontece: quando somos confrontados com uma tarefa difícil, o nosso desejo de autocontrole acaba se traduzindo em baixa autoconfiança – nós ficamos com a sensação de que não temos essa capacidade em um nível suficiente. Isso leva a uma queda no que os psicólogos chamam de autoeficácia, ou a crença nas nossas próprias habilidades. E uma baixa autoeficácia leva à perda de engajamento na tarefa que temos a desempenhar. Nós achamos que não somos capazes e aí nos esforçamos menos, como uma profecia autorrealizável.

Esse efeito é tão forte que provoca resultados homogêneos, não importa a predisposição básica de exercer autocontrole que cada pessoa já tenha. Isso quer dizer que tanto as pessoas mais controladas quanto as menos controladas tiveram desempenhos semelhantes quando carregavam um forte desejo de ser desenvolver mais essa capacidade.

Moral da história: confie que você é capaz de fazer as coisas que se propões a fazer e tente não exigir demais de você mesmo.

Por Ana Prado, 27 de junho de 2017, Psicologia do Brasil.

TEXTO ORIGINAL DE SUPERINTERESSANTE

ALGUMAS RESPOSTAS PARA A BANALIZAÇÃO DO MAL

Nas cenas do cotidiana, o mal se banalizou. Mais um exemplo são as cinco palavras, tatuadas à força na testa de um jovem de 17 anos: “Eu sou ladrão e vacilão”. A tortura ocorreu por ele ser suspeito de roubar uma bicicleta em São Bernardo do Campo (SP).

Agressão no adolescente gerou indignação, mas também admiração pelos internautas.
Somos um país que lidera o ranking mundial de linchamentos e homicídios, que banalizou assistir à população fazer justiça com as próprias mãos. Porém, podemos encontrar na filosofia e na psicanálise algumas respostas para entender a banalização do mal. Segundo Theodor Adorno, a principal característica da sociedade de massas não é somente a perda da individualidade, mas a perda da sensibilidade.

O que estamos assistindo todos os dias é a herança da apatia burguesa, que contaminou indivíduos de todas classes sociais, que se tornaram indiferentes a esses acontecimentos e que ainda defendem de forma odiosa essas atitudes brutais nas redes sociais.
Assim o mal embrutece determinadas pessoas diante do sofrimento causado pelo guerra, miséria, injustiça, tortura, repressão e barbárie, como sendo normal a coisificação humana. No seu livro “A Banalidade do Mal”, Hannah Arendt, mostrou que a multidão é incapaz de fazer julgamentos morais e insensível a toda dor e injustiça.

A psicanálise interpreta que a banalização do mal na sociedade atual é a vazão que algumas pessoas fornecem a sua pulsão de morte, conhecida como tânatos. Uma vez que odiosidade e a agressividade são forças que coabitam no ser humano e se manifestam nos conflitos banais de maneira mórbida em nosso cotidiano.

A pulsão de morte simboliza no interior do ser humano como autodestruição, e para o exterior se revela como pulsão de destruição. Por isso, existem pessoas que deixam o seu “demônio interior” falar mais alto, estabelecendo o limite entre o somático e o psíquico, arrastando o organismo a agir em direção do mal. Fiódor Dostoiévski escreveu que sabemos secretamente da existência de um demônio oculto, que habita em nós.

Não é por acaso que fundamentalismo político e religioso se aproveitam da banalização do mal, para destruir o espaço público, criando uma sociedade de indivíduos atomizados, que zanzam pelos shoppings centers tentam esquecer o medo da pobreza. Além disso, esse discurso de ódio desrespeita as diferenças e quer impor as suas normas através da força, condenando todos os que pensam de outro modo.

Entretanto para Jean-Jacques Rousseau o homem só se torna homem, ou seja, torna-se humano pela piedade e a piedade está presente nas pessoas de boa vontade, pois dessa virtude brotam a generosidade, a clemência, a bondade e a benquerença. São poderes mentais, emocionais e espirituais que colocados em ação asseguram a defesa da dignidade humana e recusam a banalização do mal, a fim de bloquearmos a “força luciférica”, que insiste morar dentro de nós.

Por

Jackson César Buonocore, 19 junho de 2017. Psicologias do Brasil.

 

Dieta gostosa

Assuma a responsabilidade pelo que você come e deguste o resultado de suas escolhas

Talvez você conheça (ou seja) uma dessas raras pessoas que naturalmente comem pouco – mas será que conhece alguém que não goste de comer? Hum, não sei se existe. A gente não come só para saciar necessidades fisiológicas, mas também porque é uma delícia. E, desde cedo, todo mundo aprende que comida se serve com emoções. Criança malcriada fica sem sobremesa, quem se comporta ganha um doce. Por isso a idéia de fazer dieta pode levá-lo logo a pensar em fome, sacrifício, punição. Está no nosso imaginário: a palavra dieta já vem relacionada a uma folha de alface acompanhada de uma fatia de queijo branco – nada apetitoso.
Acontece que a dieta não tem que ter esse peso desanimador. Porque a dieta ideal é aquela que leva em conta seus gostos e inclui uma ampla variedade de alimentos com calorias e nutrientes suficientes para uma boa saúde. Pense bem: controlar o peso, preocupar-se com o valor nutricional dos alimentos e mesmo ter vaidade são sinais de boa auto-estima. Com informação, você pára de reproduzir, sem pensar, hábitos alimentares herdados da família ou impostos pela publicidade. Quando, claro, isso é vivido com tranqüilidade. A palavra dieta, hoje tão estigmatizada, significava originalmente “modo de vida”. Entre os médicos gregos da Antiguidade, o vocábulo díaita servia para todos os hábitos do dia-a-dia: comer, beber, dormir, namorar, exercitar-se e até pensar. Por essa óptica, dieta é um jeito de viver. Então, fazer dieta é só um jeito de cuidar da vida.

Dieta da não-dieta

Em começo de ano, muita gente faz dieta numa tentativa apressada (e culpada) de se livrar dos excessos cometidos nas férias e nas festas de de­­zem­­bro. Ou dos quilinhos acumulados em anos de descaso com a alimentação. E acaba abusando de dietas da moda, shakes, simpatias. Mas a pressa é inimiga da manutenção. Perder peso de forma definitiva é um aprendizado e requer tempo. É preciso reduzir gradualmente a quantidade de calorias do cardápio e inserir, também pouco a pouco, atividades físicas. Metas ambiciosas de vários quilos eliminados por semana podem até funcionar num primeiro momento. Mas, sem educação alimentar, o indivíduo se coloca em risco, não tem suas metas mantidas a longo prazo e assim tende a perder a motivação para uma nova tentativa.
“Durante uma dieta muito restritiva, o organismo se adapta a funcionar com pouca comida”, explica Daniel Bandoni, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. “É um mecanismo fisiológico – quando a pessoa retoma a alimentação normal, o corpo entende que é necessário armazenar energia.” Assim, além de ser muito radical, o faminto volta a acumular o peso inicial e pode engordar mais.
As calorias são nosso combustível, resultado da transformação dos alimentos em energia pelo organismo. Ao ser executada, qualquer ação do corpo consome certa quantidade de calorias. Você está queimando calorias neste exato momento, mesmo que esteja lendo a vida simples estendido numa rede. Porque seu coração, seus pulmões e seu cérebro estão em plena atividade, obrigado.
Até piscar os olhos gasta calorias. A questão é que, se você consome 2 mil delas por dia e só gasta 1500, seu corpo começa a estocar o excedente em forma de gordura. O endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do grupo de obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, criou em 1970 um método que facilita essa conta, publicado no livro A Dieta dos Pontos. Ele atribuiu uma pontuação a centenas de alimentos consumidos hoje. Um pão francês, por exemplo, equivale a 40 pontos. Assim, se seu limite diário for de 500 pontos, fica mais fácil saber o que um pãozinho representa. “É um sistema para que o indivíduo aprenda a controlar o que vai comer”, diz o médico. “Eu, particularmente, não gosto muito da palavra dieta. Prefiro autocontrole.”

Equilíbrio no garfo

Dieta, consciência, autocontrole… Depende da perspectiva. O mais importante é que, assim, a gente pode comer de tudo. Porque a vida é imprevisível – você nunca sabe quando pode deparar com um quindim. A conta não precisa fechar com exatidão contábil a cada refeição. Nem a cada dia. Um jantar leve, explica Halpern, pode compensar um almoço exagerado. Um domingo num festival de culinária pode ser equilibrado por uma semana mais moderada. E assim vai. Quando entende o que cada alimento representa para seu corpo, você desenvolve autonomia para comer bem. Pode cometer ousadias eventuais – claro que pode! – e fazer as devidas correções na seqüência.
Além de estabelecer priorida­des, fazer substituições inteligentes também ajuda a manter o peso e, se for o caso, a eliminar quilos excedentes. Essa foi a estratégia do empresário José Marcelo Italiano, de 47 anos, “Chamo minha dieta de troca e, assim, não sinto que como menos”, diz. Pois é, muita gente não gosta mesmo da palavra dieta. Ele trocou o açúcar por mel, a carne vermelha pelas brancas, as farinhas finas por versões integrais, o refrigerante por sucos e chás.
José Marcelo perdeu 12 quilos de barriga, sem passar fome. “Comer continua sendo um grande prazer”, diz. Mais disposto, ele dorme melhor e pratica suas atividades físicas com mais disciplina. Reeducação alimentar é como lavar louça: parece mais chato e difícil antes de você começar.
E comida tem tudo a ver com motivação. A serotonina é o neurotransmissor responsável por desenca­­dear no cérebro sensações agradáveis, de otimismo, prazer e bem-estar, como explica a nutricionista Sonia Tucunduva Philippi no livro A Dieta do Bom Humor. “E como é produzida a serotonina?”, pergunta a autora, em clara provocação. “Entre outros caminhos, por intermédio da… alimentação.”
Os carboidratos complexos, presentes nas versões integrais do arroz, do macarrão e dos pães, ajudam o organismo a liberar o açúcar gradualmente, promovendo uma experiência de bem-estar prolongada. Ao deliciar um chocolate, você sente isso de uma forma mais intensa, mas esse prazer é fugaz, dura só alguns minutos.
Os alimentos são capazes de nos deixar quimicamente mais predispostos a uma vida saudável e feliz. Mas, mal escolhidos ou em proporções inadequadas, eles se acumulam no corpo e se tornam um fator gerador de doen­ças e infelicidade. “O segredo que vale ouro é comer um pouquinho de tudo”, ensina Sonia, que adaptou, em seus trabalhos, a pirâmide nutricio­­nal ao gosto do brasileiro.
Os carboidratos (arroz, mandioca, macarrão etc.), que nos dão ener­­gia, são a base da pirâmide – você po­de consumir de cinco a nove porções por dia. Um nível acima ficam as frutas (de três a cinco porções), os legumes e as verduras (entre quatro e cinco porções). Mais acima, nosso feijão e outras leguminosas, com uma porção, e o leite com seus derivados, em três porções. No topo, eles: doces e gorduras, com uma ou duas porções pequenas de cada. A priori, nada é proibido.

Reeducação alimentar

A publicitária Siomara Misiukas, de 39 anos, só aprendeu isso recentemente. Ela foi obesa quase a vida inteira. Em vários momentos, tomou remédios e fez dietas muito restritivas, que só proporcionavam um emagrecimento temporário e pouco saudável, com queda de cabelo e unhas fracas e danificadas.
No ano passado, aos 96 quilos, Siomara decidiu fazer reeducação alimentar. “É a primeira vez que me sinto magra em toda minha vida”, diz. “Perdi 32 quilos e posso dizer com segurança que não sofri.” Em vez de comer muito duas vezes ao dia, ela passou a comer o necessário seis vezes.
A reeducação alimentar é um processo de aprendizado sobre hábitos alimentares saudáveis. Não se trata de permitir determinados alimentos e proibir outros. Nem é exatamente dieta. A reeducação é acompanhada de dieta, no sentido que conhecemos, quando é necessário eliminar ou ganhar peso ou ainda evitar certos alimentos que podem colocar a saúde em risco (açúcares para diabéticos, glúten para quem tem doença celíaca etc.).

Um pouco de tudo

Para uma pessoa comum, uma alimentação saudável deve abranger cereais, carnes, leite e derivados, legumes, verduras, frutas, leguminosas e, em menor quantidade, doces e gorduras. Tudo, enfim. Sabia que até um pouquinho de colesterol é necessário? Pois é: ele compõe a membrana de todas as células do corpo e é importante para a síntese da bile e de vários hormônios – os sexuais, inclusive. Só que, em excesso, o colesterol pode entupir suas veias e causar problemas cardiovasculares. A questão é a medida.
Como Siomara precisava perder muito peso, a dieta dela previa menos calorias que o necessário para o consumo diário do organismo. Mas o déficit era compensado pela gordura estocada no corpo. Foi com essa queima de estoque que ela emagreceu. E sem passar fome, porque Siomara se sentia saciada com uma refeição a cada três horas, hábito que também mantinha seu metabolismo acelerado.
O metabolismo é o conjunto de transformações químicas que ocorrem dentro do organismo para mantê-lo vivo e saudável. Isso queima calorias. Refeições leves e freqüentes mantêm o metabolismo acelerado. Atividade física também. E com o metabolismo em pleno vapor você emagrece mais rápido.
Foi assim que diagramador de livros Murilo Lopes, de 29 anos, aprendeu a lidar com seu peso. “Entendi que, se comer pouco, posso comer sempre”, diz. Ele nunca colocou no lápis quantas calorias consome diariamente, mas conseguiu emagrecer 25 quilos comendo pouco várias vezes ao dia e dando prioridade a alimentos saudáveis. A principal mudança foi trocar de restaurante. O “prato feito” do almoço deu lugar a um bufê em que pode variar a alimentação e fazer escolhas mais inteligentes.
Quando chegou aos 95 quilos, Murilo também foi liberado pelo médico para prosseguir sozinho. É preciso respeitar a própria estrutura física. De acordo com o especialista, ele, que tem 1,83 metro de altura, pode ser considerado saudável com um ligeiro sobrepeso. Recentemente, Murilo tirou férias e se permitiu engordar alguns quilos. Tudo bem, porque agora ele está no controle. Com a retomada das atividades normais, já voltou a perder peso.
Algumas pesquisas indicam que uma dieta extremamente pobre em calorias pode garantir o aumento da expectativa de vida. Resta saber a quem interessa uma vida excepcionalmente longa sem brigadeiros. Mas fazer dieta é saber que você sempre pode escolher. Quando você sai do ‘automático’ e assume a responsabilidade pelo que come, fica mais fácil definir o que é o ideal.
Como no versinho de Adélia Prado, é importante ter em mente que, sem o corpo, a alma não goza. Então cuide bem de sua fonte mais imediata de prazer. E esteja certo de uma coisa: comer bem é o melhor jeito de continuar comendo com prazer.

Poder é não querer

Diga “Obrigado, eu não quero”. Quando você recusa um pedaço de bolo com um sofrido “Eu não posso”, seu interlocutor se sente incitado a persuadi-lo do contrário.

                                                         Leandro Quintanilha; Revista Vida Simples 06/04/2017 .

                                                          Imagem –  Crédito: Vida Simples Digital.

 

 

FILMES PODEM SER ÓTIMOS ALIADOS PARA ENCONTRAR MOTIVAÇÃO NO TRABALHO

Muitas produções do cinema não se limitam apenas a nos entreter e emocionar, elas podem trazer grandes lições de vida com exemplos de superação, motivação e sucesso.

Algumas, em especial, foram baseadas em fatos reais, outras são apenas obras da ficção, mas, se prestarmos atenção, todas elas podem conter mensagens que servem de inspiração para as conquistas no trabalho e na vida pessoal.

Nunca deixe que alguém te diga que não pode fazer algo. Nem mesmo eu. Se você tem um sonho, tem que protegê-lo. As pessoas que não podem fazer por si mesmas, dirão que você não consegue. Se quer alguma coisa, vá e lute por ela. Ponto final.

Um dos clássicos indispensáveis para quem está desanimado com assuntos profissionais é “À Procura da Felicidade” (2006). A produção mostra o exemplo de vida de Chris Gardner (Will Smith), um homem que enfrenta todos os tipos de dificuldade, mas não desiste do seu sonho de conquistar uma carreira de sucesso. Sua principal motivação é o seu filho de 5 anos, o qual cuida sozinho e procura fazer de tudo para dar a ele uma vida melhor. Um grande exemplo de amor e superação, baseado em fatos reais.

“É inacreditável o quanto você não sabe do jogo que tem jogado a vida toda.”

“O Homem Que Mudou o Jogo” (2011) faz uma excelente abordagem sobre um líder esportivo. Billy Beane (Brad Pitt), técnico de um time de beisebol com baixo orçamento, conta apenas com sua liderança e motivação para reconstruir uma equipe que perdeu os melhores jogadores para times mais ricos. Na sua determinação em ser vencedor, ele procura todas as opções para alcançar a vitória e chega à conclusão, que reunir jogadores veteranos descartados dessa modalidade pode resultar numa força fora do comum. O filme mostra que a união dos talentos individuais pode resultar em sucesso.

 

 “Não corra atrás do que não pode pegar.”

Em “Bem-Vindo ao Jogo” (2007), Huck Cheever (Erick Bana) é um excelente jogador de poker que precisa de uma quantia para se inscrever na equivalente à Copa do Mundo da modalidade, a World Series of Poker (WSOP). Na competição, ele poderá ter como adversário seu próprio pai, que abandonou a família e já foi campeão duas vezes deste mesmo evento. Travar uma batalha nas cartas com seu pai parece ser o principal motivo para Cheever participar do campeonato. Mas a maior lição para ele está por vir, através da sua namorada Billie (Drew Barrymore), que vai fazer com que ele enfrente a vida da mesma forma que enfrenta o jogo, usando o coração.

“Você está mudando a vida deste garoto. Não. Ele que está mudando a minha.”

O incrível “Um Sonho Possível” (2009) mostra a história de Mike (Quinton Aaron), um jovem negro que viveu todo tipo de rejeição, tanto do lar destruído quanto da comunidade pobre onde cresceu. Depois de passar por muitas escolas, foi adotado por uma família de classe alta que o amou, apoiou e o motivou. Leigh Anne (Sandra Bullock), sua mãe adotiva, apostou no seu talento e o ajudou a superar os desafios para se tornar um grande astro do futebol americano. As situações vividas neste filme, tanto pela família quanto por Mike, são inspiradoras, inclusive quando se trata do assunto adoção.

“Temos que aprender com nosso passado. Não devemos esquecer. E temos que ser melhores.”

Baseado em fatos reais, “Uma Lição de Vida” (2010) conta a história do queniano Kimani Maruge (Oliver Litondo), que, aos 84 anos, entra para a escola primária, após o governo aprovar a lei de ensino básico gratuito naquele país. O filme é uma lição de perseverança e mostra que não existe idade certa para realizar os sonhos e correr atrás dos direitos que nos são concedidos.

 

“Você pode fazer o que qualquer um faz, só que muito melhor.”

“Mãos Talentosas” (2009) segue essa linha comovente de filmes de superação de limites. Ben Carson (Cuba Gooding Jr) é um garoto afrodescendente e pobre, que sofria bullying na escola. Sua mãe, uma mulher analfabeta, o obrigava a ler dois livros por dia, até que ele passou a se dedicar totalmente aos estudos e se tornou um reconhecido neurocirurgião. A comovente história, baseada na vida real do Dr. Benjamin S. Carson, é motivadora o suficiente para acreditarmos que não existem limites para alcançar os sonhos, e que cada um pode chegar onde deseja através do seu próprio potencial.

 

“Nunca esqueci. Nem por um momento. Eu sabia que te encontraria no fim. É nosso destino.”

No filme “Quem Quer Ser Um Milionário?” (2008), Jamal Malik (Dev Patel) é um jovem de 18 anos que cresceu numa favela na Índia. Ao participar de um programa de TV, ele só precisa acertar a pergunta final para ganhar uma grande soma em dinheiro. Mas bem nessa hora a polícia o prende por suspeitar que ele está trapaceando. Para provar o contrário, Jamal conta sua história de vida, todas as dificuldades e situações ruins que enfrentou, mostrando que estes foram os motivos que o fizeram estudar e adquirir os conhecimentos necessários para concorrer no programa. O seu amor por Latika (Freida Pinto) também foi um dos motivos para perseguir o sonho de vencer o show de perguntas e respostas.

Autor: Miguel Lucas, 17/05/2017. Escola Psicologia.

PARA NÃO SABOTAR OS PRÓPRIOS SONHOS

Quem deseja materializar sonhos sabe que há um preço a pagar.
É quase impossível alcançar objetivos sem foco, disciplina e algum sacrifício.
Disso resulta que não são poucos os que desistem no meio do caminho ou mesmo próximo ao ponto de chegada. Até os mais confiantes experimentam sentimentos de vulnerabilidade que os levam a sabotar os próprios sonhos. Eles procrastinam, abandonam projetos e desistem de trabalhos importantes, mesmo em fase de acabamento.
Nessas horas, é fundamental alimentar o senso de disciplina e a confiança realística para combater a negatividade e prevenir ataques de desânimo. Vejamos alguns antídotos que podem ajudar a instalar circuitos constantes de ação mais eficaz e afastar o risco de virarmos sabotadores de sonhos.
Haja com autonomia, mas cuide dos impulsos. Faça escolhas com independência, entretanto, guie-se por princípios para não violentar seus valores fundamentais.
O imediatismo não é bom conselheiro. Considere as implicações de seus atos para além das circunstâncias imediatas, por isso, avalie o impacto das decisões a tomar pelo menos no médio prazo.
A dissipação de tempo e esforço, por exemplo, é inimiga da eficiência e da autoestima. Assim, antes de iniciar um projeto, verifique se ele está afinado aos seus propósitos; os recursos a utilizar; o retorno a obter e planeje sua ação sem perder de vista esses aspectos.
Lembre-se de que a energia pessoal é um recurso tão valioso quanto o tempo. Daí, se depois de exame consciencioso, você decidir iniciar um curso de ação, veja o que o estimula e o que costuma sugar sua energia.

Há diversas formas de energizar a ação. Esteja atento aos seguintes pontos.
Se o desânimo for ocasionado pelo cansaço, faça intervalos estratégicos (não muito longos), o suficiente para repor energias. Uma metodologia ruim dificulta tarefas e acrescenta fadiga, faça pequenas paradas para reavaliar o método de trabalho.
Mantenha a autoestima. O sentimento de menos valia pessoal mina a autoconfiança, repercutindo negativamente no estilo de trabalho.

Nos ataques de baixa autoestima, visualize sua história de vida, relembre feitos e conquistas. Isto fortalece a confiança e ajuda a retomar a tarefa com vigor. Seja humilde e acessível. Peça ajuda e orientações. Diga aos amigos a necessidade de receber incentivos e feedback sobre o que conseguiu realizar. Essa iniciativa evitará sentimentos de desamparo, além de incrementar sua força psicológica.
Procure fontes de inspiração. Invoque para seus sonhos, a força de pessoas que não fugiram de si mesmas e cujas ações são modelares e lembram de que se foi possível para eles, também pode ser para você. Quando nos sentimos inspirados temos mais tolerância à frustração e tentamos mais, antes de desistir, então, inspire-se. Veja quem são seus modelos e não hesite em incorporar formas de agir e pensar na materialização de seu sonho.
Sobre a disposição humana para devotar-se a uma causa ou sonho, Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, trouxe pensamentos esclarecedores. No livro ‘A Busca do Sentido’, ele demonstra sua crença na capacidade do homem de dedicar-se a algo para além das limitações. Sobre isso ele diz: ‘o homem é o ser que sempre decide o que ele é’.
Outra noção sobre o assunto pode ser extraída do pensamento de Nietzsche – filósofo dedicado à busca do entendimento da condição humana. É dele o convite ‘Ouse conquistar a si mesmo’ que conclamava todos a tomar posse de si para deixarem de serem vítimas do destino. Finalizando esta reflexão, repetimos o convite nietzschiano: ouse conquistar a si mesmo! Saiba, vai haver momentos de extrema confiança e outros de fraqueza. A despeito deles, prossiga.
Mude métodos ou planos; só não desista de você.

Manual prático para lidar com a crise existencial

No que o solitário está pensando? Em como pagar o aluguel, dizer àquela bonita moça que a ama ou está próximo de um insight filosófico que o faria questionar o que raios ele estava fazendo parado ali? Estaria ele em crise existencial?

Pois é, o ato de questionar a vida pode trazer sentimentos ingratos e que põem na mesa dúvidas pertinentes (ou aquelas nem tanto) que nos fazem parar e prestar atenção em por que razão existimos. Penso, logo existo? Que nada! Penso, logo entro em crise. Afinal, quem nunca ficou angustiado com as dúvidas e mistérios da natureza humana?

As crises existenciais não têm hora, lugar ou uma razão específica para estourar. De uma forma geral, tudo pode ser motivo para ela chegar de mansinho e se apoderar dos nossos pensamentos: uma página em branco, odiar o emprego, não arranjar uma namorada bacana (ou até uma que nem seja tão bacana assim…), uma família estranha, a aparência fora do padrão – ou tudo isso ao mesmo tempo. Essas são castrações modernas suficientemente poderosas para desequilibrar qualquer cidadão. E os resultados delas podem variar entre choros parciais, choros constantes, depressão e até, nos casos extremados, suicídio.

“Mas como ninguém pensou em solucionar isso antes?”, pode se angustiar o leitor. O fato é que já se pensou, sim. Desde Sócrates, pelo menos. Tanto que o ato de filosofar surge, de certa forma, dessa premissa: a de observar, investigar e compreender toda a miscelânea de sentimentos que formam o Homem.

Evolução da espécie

Pensar e refletir a respeito de “o que é o amor”, “o que é a morte” e “por que eu não tenho um conversível”, entre tantas outras charadas, é uma prática que toca muita gente. Os questionamentos são naturais, fazem parte da nossa natureza, e a razão de nos perguntarmos é porque existe algo ali fazendo cócegas, causando certo incômodo… Só que de tanto refletir, algumas verdades vieram à tona. E saber lidar com elas foi essencial para a evolução da espécie. A coisa começou mesmo a ficar feia quando o Homem foi destituído do status de “o” ser superior do universo.

O primeiro a contribuir com essa questão foi Nicolau Copérnico, que jogou, digamos, o problema no ventilador quando provou que a Terra não era o centro do sistema solar. Em seguida, Charles Darwin nos apresentou a Teoria da Evolução, confirmando que nossas raízes nos ligavam, quem diria, aos primatas. E há pouco mais de um século Sigmund Freud desandou de vez o caldo ao descobrir o inconsciente e, com isso, afirmar que não somos exatamente donos do nosso nariz.

As três teorias acertaram em cheio o ego da sociedade. Com o espelho do Narciso arranhado, tomou-se consciência de que tudo poderia ser motivo de dúvida. Na insegurança e desorientação das massas, o capitalismo fez sua mágica. Além do coelho, tirou da cartola casas, carros, videogames, roupas e tudo o mais para nos desviar o foco das angústias. Porém, isso tudo não passa de uma forma de abstração, provoca o psicanalista Cláudio Cesar Montoto. Quando alguém fala que está em crise existencial, precisa descobrir qual o seu motivo. “Não há um sintoma nomeado como crise existencial, existem sim castrações de desejo no sujeito que o angustiam”, diz ele.

Por isso, muitas pessoas sentem dificuldade ao tentar definir a razão de estarem insatisfeitas com a vida. Como escreve o psicanalista J.D. Nasio no livro Um Psicanalista no Divã, os motivos de crise parecem ser muitos mas, no fim, possuem como denominador comum os distúrbios sexuais, os conflitos familiares e os problemas sociais no trabalho. Algumas pesquisas e generalizações só dão mais nós nessa questão com as ideias da “crise masculina dos 40 anos”, “a crise da meia-idade” e “a crise da mulher moderna com emprego”, entre tantas outras. “O importante é entender que a crise existencial é a defesa do sujeito contra seu próprio desejo”, diz Montoto.

Então, podemos entender que, se homens e mulheres possuem desejos diferentes, logo, as crises também se manifestam de raízes diferentes? Mas é claro! Não significa que todo homem vai entrar em crise na meia-idade, obviamente, mas que há consternações diferentes em cada gênero. Para Nasio, “a problemática da mulher é do querer, a problemática do homem é poder”. Com isso, desenvolve-se o conceito de que as angústias masculinas são relativas ao declínio de autoridade, da função paterna e toda virilidade investida. Ao passo que o mal-estar na mulher está mais ligado à questão do amor, do ciúme de possuir o parceiro somente para ela, medo da solidão e de ser traída.

Em resumo, entre solidão, aceitação sexual e problema familiar, a crise existencial nada mais é que um diálogo interno, sua autocrítica em comparação e relação a si mesmo e ao outro. Quem é o outro? Parentes, amigos, astros de TV e quem mais quiser entrar na roda. Por isso, constantemente nos questionamos “por que não tenho uma turma de amigos como a de Friends?”, “será que vou viver um amor como o de Brad Pitt e Angelina Jolie?” e “minha vida poderia ser tão repleta de aventuras como a do James Bond?”.

Eu sou o outro

Uma forma paralela de analisar a importância desse “outro” é quando ele fica oculto, à primeira vista, e o sujeito se compara a ele mesmo. Grosso modo, é uma forma de exemplificar uma das ideias de Jean-Paul Sartre. Tomado por muitos como um pensador negativo e pessimista, o filósofo é o representante maior do movimento conhecido como existencialismo, e ele faz sua contribuição – para o bem ou para o mal – quando diz que a existência precede a essência.

O estudioso de filosofia José Renato Salatiel retoma as teorias de Sartre para exemplificar nossas angústias: somos os únicos responsáveis por nossas escolhas na vida. Nascido rico ou pobre, alto ou magro, o que o sujeito vai fazer com isso, com essas características, é sua essência, e não é justificável atirar a carga para a natureza ou Deus. “Sartre joga o peso da responsabilidade para o próprio sujeito, e ele, sem ter para onde escapar e em quem botar a culpa de fracassos e projetos não realizados, naturalmente entra em crise”, afirma Salatiel. E defende que, ao chegar a determinada idade, é natural que “paremos para refletir em todas as nossas realizações e quais foram nossas escolhas”. Nessa retomada, encontram-se muitos desejos que ficaram de fora. Logo, a crise pode vir por consequência. Ele acredita que são essas desilusões que devem ser compreendidas e tratadas para se evitar – ou combater – a crise.

O doutor Freud, por sua vez, tinha uma outra forma de enxergar as crises: não acreditava na felicidade constante – imaginava, sim, que ela fosse como uma montanha-russa, cheia de altos e baixos, tudo regido pelo confronto do que ele nomeava como princípio do prazer e princípio da realidade. Logo, isso aponta para um universo onde todos os sujeitos passarão, uma hora ou outra, por processos de angústia e momentos de felicidade. Quando o momento feliz passa, sempre procuramos repetir aquela sensação. Como nem sempre é possível, a angústia se instaura e, quando não bem tolerada, a crise existencial dá as caras.

Contornar e sair dela exige paciência e tempo. Refletir, procurar o diá­logo e compreender que cada escolha tem o lado positivo pode ser uma forma de relativizar as coisas e enxergar a crise sem as lentes do exagero. Afinal, aprender a dar valor a esses pequenos detalhes contribuem na tarefa de humanizar cada sujeito. “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis”, cravou Freud no célebre texto O Mal-estar na Civilização.

A todo momento somos bombardeados por informações e possibilidades de sucesso sem fim, que nem sempre conseguimos abraçar. Em algum momento, é natural cair na armadilha de se sentir incapaz. Essa constatação, na verdade, pode ser muito positiva. Ela leva o sujeito a repensar as coisas, amadurecer e buscar novas alternativas para a felicidade. Mas isso quando ele está disposto a enfrentar as mudanças que podem decorrer desses questionamentos, claro.

Vida menos ordinária

A arte e a busca pelo prazer podem ser formas mais positivas de contornar e compreender os problemas que nos deixam pensativos. Há quem pinte quadros, componha músicas ou mesmo descarregue suas frustrações no esporte para encontrar o equilíbrio sentimental.

“As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que assumiu a vida mental”, explica Freud. Woody Allen, Van Gogh, Clarice Lispector, Ray Charles e Fernando Pessoa são alguns artistas que transferiram e sublimaram suas dores existenciais por meio da arte. Allen, por exemplo, conseguiu transferir para seus filmes suas neuroses e sentimentos e enfrentá-los de forma divertida e inteligente.

No filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a cena final mostra seu personagem dirigindo um ensaio tea­tral que retrata o sucesso de um relacionamento amoroso, após aquele vivido por ele ao longo do filme ter fracassado. Com o fim do diálogo, eis que Allen se explica ao púbico: “O que você quer? É minha primeira peça. Sabe, você sempre tenta fazer tudo sair perfeito na arte, porque na vida real é mais difícil”.

Para o psicanalista Montoto, são dois os pontos importantes para superar uma crise. Um: saber reconhecê-la. Dois: enfrentá-la. Todo mundo passa por uma ou várias crises durante a existência. E, se não passou, ainda há de passar. Mas a única forma de fazer com que ela deixe de dominar nossos pensamentos é descobrir e compreender o que está por trás dela. É preciso reconhecer que nossas escolhas sempre acarretam perdas, dúvidas e senões. “Todos nós temos desejos reprimidos e precisamos enfrentar sem medo a castração”, diz ele. Só assim conseguimos aceitar os deslizes da vida e perceber os questionamentos que se instauram como uma pulga atrás da nossa orelha. Porque é assim mesmo: mal encontramos as respostas e nossa mente já trata de ir atrás de formular outras perguntas.

Revista Vida simples,04/05/2017; O ato de questionar a vida pode trazer sentimentos ingratos e que põem na mesa dúvidas pertinentes | Crédito: iStock.

AS PESSOAS FERIDAS MACHUCAM OS DEMAIS

Talvez elas tenham te machucado em mais de uma ocasião, mas você já parou para pensar na razão por trás deste tipo de comportamento? Nunca pensamos no que pode ter acontecido com a outra pessoa para agir assim. No entanto, as pessoas feridas costumam agir deste modo.

Às vezes isso acontece porque aguentaram tanto, que tudo o que sentiam se tornou um rancor que não discrimina entre os que as tratam bem e os que não. Outras vezes, simplesmente, tentam se proteger desta forma tão incorreta. Sem perceber, machucam os outros antes que os machuquem.

As pessoas feridas sofreram muito

Mostraremos vários exemplos que ajudarão a entender por que as pessoas feridas procedem desta maneira.

  • Imagine que uma criança vem sendo maltratada desde pequena e também viu como um de seus pais era maltratado. Sem saber, o pequeno acreditará que isso é “normal” e, por isso, reproduzirá o comportamento.
  • Mesmo que chore, apesar de sentir dor, na idade adulta talvez maltrate seu parceiro ou exerça a violência contra quem o contrarie. É o padrão de comportamento que viu desde pequeno.
  • No caso de que este tipo de agressão se reproduza somente na idade adulta, talvez a pessoa tente se comportar da mesma maneira em futuras relações para evitar que isso aconteça com ela.
  • Em seu interior, ela pensa: “melhor o outro do que eu de novo”.

O mesmo acontece com aqueles que tiveram algum tipo de carência afetiva. Em sua relações, se apegarão e sofrerão da terrível dependência emocional. 

De que maneira isso é um problema?

Os ciúmes, a necessidade de controlar nosso parceiro para que não nos abandone, a culpa, tornar o parceiro responsável por nossa felicidade…

No final, a outra pessoa termina desgastada pois se encontra submersa em uma relação tóxica.

O que fazer diante das pessoas feridas?

Realmente não podemos tentar mudar estas pessoas. Às vezes elas sabem que não podem continuar assim e são conscientes do que estão fazendo errado.

No entanto, é uma decisão delas e algo que os demais não podem resolver. Seu comportamento, na maioria das vezes, não é premeditado.

Por isso, o que nós podemos fazer diante deste tipo de pessoa para que não nos machuquem? Eis aqui algumas soluções:

  • Não se aproxime mais do que o necessário. Às vezes tentarão te manipular, em outras você descobrirá seu passado e sentirá pena. No entanto, você é importante e tem que se cuidar.
  • Se desejar, aproxime-se delas, mas não mais do que o necessário. Quando estiver no limite, afaste-se.
  • Evite agir como elas. Elas estão feridas e, se você agir da mesma maneira, favorecerá que sigam se comportando assim, e inclusive que sintam sua autoestima mais danificada.
  • Se notar que tentam te ferir, dê meia volta.
  • Não lhes diga o que fazer. Ninguém pode ajudar a outra pessoa se esta não quer ajuda. Por isso, se quiser evitar se desgastar e se esforçar em vão, não lhes diga para procurar ajuda profissional e muito menos tente dirigir sua forma de ser.
  • Aceite-as

    Sua melhor opção será aceitar as pessoas feridas como são. Todos se machucaram alguma vez e talvez tenhamos até prejudicado alguém sem querer.

    Nosso instinto de sobrevivência nem sempre age da forma mais adequada. Ele não conhece valores, nem normas, nem regras. Somente quer que você sobreviva e supere o que ocorreu.

    Assim, não olhe torto para aquele menino que aborrece outro na escola, pois este carece de uma grande autoestima e talvez tenha milhares de problemas em casa.

    O ideal seria parar este comportamento e tentar corrigi-lo agora enquanto ainda há tempo, já que quando chegamos na idade adulta é mais difícil. Na maturidade, somente nós mesmos podemos abrir os olhos, perceber o que ocorre e pedir ajuda para mudar e deixar de machucar os demais.

                                                                   TEXTO ORIGINAL DE MELHOR COM SAÚDE

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