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Análise Cognitiva
A terapia cognitiva comportamental é um tipo de terapia breve e focal. Visa o esclarecimento e a modificação de distorções cognitivas e comportamentos que são responsáveis pelas condutas e situações geradoras de sofrimento.
É uma técnica terapêutica, diretiva, estruturada e ativa onde psicólogo e terapeuta trabalham juntos durante as sessões procurando conhecer as crenças e pensamentos mais importantes e sua relação com o sofrimento. Quando os pensamentos e crenças são disfuncionais para o indivíduo procura-se por modos alternativos de ver e comportar frente às situações ou emoções que os suscitam.
O principal objetivo da terapia Cognitivo comportamental é psicólogo e paciente identificar pensamentos e comportamentos causadores de sofrimento, tendo como objetivo a reestruturação cognitiva através da intervenção em esquemas nucleares que predispõe a pessoa a distorcer a realidade gerando sofrimento. Uma variedade de estratégias cognitivas e comportamentais são utilizadas.

Fonte: Consultório de psicologia

Os 40 anos chegaram? É hora de restaurar sonhos e jogar os entulhos fora. Por Ivonete Rosa Ivonete Rosa

Desde menina, escutava as pessoas dizendo que “a vida começa aos 40”. Confesso que isso me deixava bastante intrigada, mesmo depois de adulta. Afinal, que surpresas poderiam aguardar uma pessoa ao entrar para a quarta década de vida? Questionei muitas vezes.
Confesso que eu adoraria encontrar uma forma de escrever sobre esse tema sem me expor, mas não seria possível, visto que o texto ficaria pobre em autenticidade. Óbvio que me inspiro também em incontáveis relatos de outras pessoas.

Ao entrar para o clube dos “enta”, pude constatar esse “começo” de vida. Me deparei com a necessidade urgente de uma revisão sobre o modo como eu vinha vivendo. Foi como jogar tudo o que eu tinha de crenças, valores, sentimentos, medos e etc. num grande tatame e fazer uma seleção bem criteriosa. Olha, isso me deu muito trabalho. Eu simplesmente “filtrei” o que me servia e joguei o resto no lixo e mandei incinerar. Percebi, claramente, que eu carregava uma mala gigante de coisas que não me pertenciam. Eram tralhas indesejadas que muitas pessoas foram me entregando ao longo de minha vida.

E, tinha muito lixo, muita tranqueira pesada e incômoda. Me deparei com “objetos” em forma de insegurança, sentimento de incapacidade, sentimento de menos valia, crenças idiotas, necessidade de aprovação de pessoas que eu nunca gostei, bloqueios e etc. Olhei para cada um desses entulhos e disse: chega, vão todos para o lixo, aqui não tem lugar para vocês mais, vou trocar toda minha mobília, vou enfeitar a minha alma.

No meio dessa bagunça toda, encontrei alguns sonhos e desejos, completamente empoeirados, quase irreconhecíveis. Peguei-os, separei num canto, limpei a poeira mais grossa e prometi a eles que, dedicaria um tempo especial para restaurar-lhes o brilho, mas que esperasse eu jogar fora tudo o que não me servia. Então, após levar todo aquele entulho para a incineração, voltei aos objetos que restaram. Eles eram meus de verdade, faziam e fazem parte da minha essência. O riso, a fé, a espontaneidade, a mania de poetizar tudo, o senso de liberdade são alguns dos itens que estavam empoeirados e que eu fiz questão de restaurá-los, lustrá-los e transformá-los em objetos de decoração da minha alma.

Eu encontrei,em meio a essa bagunça toda, no fundo da minha memória, uma menina pobre, que morava num sítio. Muito tímida, desconfiada e completamente desacreditada. Com muita mansidão, acolhi-a, coloquei-a no colo. Ela chorava muito, pois ela disse a um adulto que quando crescesse queria ter o nome dela na capa de um livro, tal qual o nome da Branca Alves de Lima na capa da sua cartilha de alfabetização “Caminho Suave”. O adulto riu e zombou do sonho dela e disse ainda que ela não serviria nem para dar um recado quando crescesse.

Então, enxuguei as lágrimas daquela menina, enchi-a de beijos e disse a ela: olha aqui nos meus olhos e ouça, você vai ser escritora, sim, eu acredito em você e você vai começar a escrever hoje mesmo. A menina sorriu e me abraçou de volta, ela está aqui escrevendo nesse momento. Os recados dela estão espalhados pela internet em forma de crônicas e poesias.

Em suma, fui percebendo que a maioria dos meus medos me foram entregues por outras pessoas. Pessoas que não queriam que eu crescesse, que eu sonhasse, que eu vivesse de forma plena. As razões pelas quais elas queriam podar minhas asas? Não sei e nem me interesso em saber, importa é que me libertei das crenças aniquiladoras que elas me entregaram um dia.

Eu optei por fazer minhas próprias escolhas, foi como tirar um véu das vistas. Eu aprendi a dizer “não” sem me sentir culpada. Aprendi a me tratar com mais respeito, zelo e compaixão. Me perdoei pelas escolhas infelizes e me parabenizo por cada obstáculo superado. Aprendi que devo comemorar minhas conquistas, não importa o quão pequena ela pareça aos olhos dos outros. Desenterrei sonhos e me dedico a eles diariamente. Não preciso mais ouvir alguém dizer que sou ou não capaz de realizá-los. Eu aprendi a me conhecer, perceber meus pontos fortes e o que posso melhorar. Percebi que não existe impossível para quem tem a alma transbordando motivação e fé.

Me libertei da necessidade de ter uma companhia para me sentir completa. Continuo acreditando no amor e desejo vivê-lo mas não quero nada mais ou menos, eu não suporto migalhas…não as aceito mais em minha vida.

Sabe, acredito que esse despertar aos 40 ocorre porque nos percebemos na metade do caminho, considerando a expectativa de vida humana. Então, não queremos mais viver de qualquer jeito, não queremos viver imposições alheias. Queremos viver aquilo que faça sentido para nós. Isso se refere à crença espiritual, relacionamentos, estilo de vida e etc. Esse filtro do que serve ou não serve acontece diariamente, só que agora ficou mais fácil, pois a “faxina” pesada já foi feita. Nesse despertar, veio, no pacote, um outro modo de olhar o outro. Com mais empatia, com mais leveza, com mais compaixão. ” Eu não tenho um novo caminho, o que tenho de novo é o jeito de caminhar”.

Depressão é a doença que mais atinge estudantes universitários

Metade dos universitários brasileiros vivenciou algum tipo de crise emocional no ano passado. A depressão foi a mais representativa: atingiu cerca de 15% dos estudantes, enquanto a média geral entre jovens de até 25 anos fica em torno de 4%. Os dados sobre os universitários são da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Para psicólogos e professores, a principal causa dessas crises é a mudança da adolescência para a vida adulta, que ocorre bem na fase em que o jovem está na graduação. Por causa das cobranças, o estudante se sente pressionado e confuso e o resultado é a falta de motivação para estudar, dificuldade de concentração, baixo desempenho acadêmico, reprovação, trancamento de disciplinas e, na pior das hipóteses, evasão.

“É o período em que o estudante vai consolidar sua personalidade e ganhar características do curso que escolheu. Essa formação de identidade, somada à necessidade de corresponder às expectativas dos outros, gera estado depressivo”, explica o professor e coordenador da Clínica de Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Luiz Henrique Ramos.

Cobrança

Nem sempre o sofrimento é causado apenas pela tentativa de mostrar à família e aos amigos que dá conta da vida adulta. A cobrança de si mesmo por um bom desempenho também é responsável por causar ansiedade nos universitários. Segundo Ramos, algumas situações específicas durante o curso podem desencadear o problema. No caso dos cursos de Saúde, a hora de atender o paciente pode gerar medo, insegurança e causar situações de ansiedade e depressão.

Os estudantes de Medicina estão entre os grupos mais atingidos, segundo o psiquiatra e professor de Medicina da Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Dagoberto Hungria Requião. Além do medo do início do atendimento, o contato com corpos nas aulas de Anatomia também pode causar tristeza e desânimo. “Ele chega ao curso superior entusiasmado e se depara logo com a morte. Nem todos estão preparados e têm maturidade para isso.”

Formada há três anos, a médica Amanda – que não quis ser identificada – lembra que passou por um estado de depressão no primeiro ano da faculdade. Depois de poucos meses de aula, começou a faltar. “Não ia mais e nem fazia provas. Simplesmente ficava em casa vendo televisão. Hoje sei que o que senti foi medo de comparação com as notas dos colegas, pois tinha acabado de passar pela pressão do vestibular e não aguentava mais aquilo.” Após quatro meses em casa, ela procurou um médico, tomou remédio e em pouco tempo estava de volta à sala de aula.

TEXTO ORIGINAL DE GAZETA DO POVO.

 

Carinho é capaz de aliviar dor da rejeição, diz pesquisa

Quando a vida nos dá um sorriso amarelo, uma demonstração de carinho tem o poder de transformar o nosso dia. Basta recebermos um abraço amoroso ou uma palavra de afeto para retomarmos a calma e seguirmos em frente.

Um grupo de cientistas se dedicou a estudar como a afetividade age no nosso organismo e descobriu que o toque gentil é capaz de acalmar os efeitos da exclusão social. A pesquisa foi publicada na revista Scientific Reports e comparou o impacto de um toque lento e afetuoso em comparação ao toque rápido e neutro após um episódio de rejeição social. Como resultado, foi encontrada uma relação específica entre toque gentil e vínculo social.

De acordo com a autora do estudo, a pesquisadora Mariana von Mohr da UCL Clinical Education and Health Psychology, a medida que nosso mundo social está se tornando cada vez mais social e digital, é fácil esquecer o poder do toque nas relações humanas. No entanto, a pesquisa mostrou pela primeira vez que o simples acariciamento lento e gentil, mesmo que por um estranho, pode reduzir os sentimentos exclusão social após uma rejeição social.

No estudo, 84 mulheres foram levadas a acreditar que estavam jogando um jogo informatizado de bola com outros dois participantes para medir suas habilidades de visualização mental. Após jogar e pegar a bola várias vezes, eles responderam a um questionário que incluía perguntas sobre auto-estima, sentimentos, entre outros assuntos.

A experiência foi projetada para que as participantes achassem que estavam jogando com outros participantes. No entanto, os outros jogadores haviam sido gerados por computador. Quando as mulheres retomaram o jogo após uma pausa, os outros jogadores, inesperadamente, pararam de jogar as bolas para elas, fazendo com que sentissem socialmente excluídas.

As mulheres foram, então, vendadas e receberam o toque de uma escova com cerdas suaves com dois tipos de intensidade: suave e rápida. Em seguida, foi solicitado que elas completassem o mesmo questionário.

As participantes que receberam um toque lento perceberam uma redução dos sentimentos de negatividade e exclusão social em comparação a quem recebeu um toque rápido e neutro No entanto, nenhum dos toques foi suficiente para eliminar totalmente os efeitos negativos da exclusão social.

Segundo a pesquisadora Katerina Fotopoulou da UCL Clinical Education and Health Psycology, os mamiferos têm uma necessidade bem reconhecida de proximidade e apego, por isso não foi uma grande surpresa que o apoio social reduzisse a dor emocional de ser excluído nas interações sociais. O que chamou atenção, segundo ela, foi que não foram necessárias palavras ou imagens, pelo menos a curto prazo, para reduzir a sensação de desânimo.

Esta descoberta baseia-se em evidências de que o mesmo tipo de toque pode ter efeitos únicos na dor física e pode influenciar na saúde física e mental.
Efeito analgésico

Pesquisadores da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, identificaram que a pele conta com terminações nervosas capazes de diminuir a sensação de dor. Os estudiosos têm chamado esses nervos de receptores de prazer .

 

Os estudiosos entendem que pode estar aí a chave para entender por que algumas pessoas gostam tanto de passar cremes, escovar os cabelos ou ganhar massagens: a presença dos nervos estimularia o bem-estar proporcionado por essas atividades. A maioria dos receptores de prazer, no entanto, concentra-se na palma das mãos e na sola dos pés.

Isso explica porque, muitas vezes, é preferível receber um abraço a ouvir palavras de conforto. O simples toque de outra pessoa já produz um efeito anestésico sobre o corpo, diminuindo o sofrimento.

A serventia do encantamento no dia a dia

O cotidiano está cheio de descobertas e prazeres, mas precisamos saber reconhecê-los. Isso nos ajuda a ter uma vida mais feliz e a encontrar poesia onde antes parecia existir apenas cinza

Há pouco tempo soube pelos jornais que apareceria uma superlua e que ela seria a maior de todas em 68 anos. Será mesmo? Não tenho medidor de lua, mas a manchete de um portal dizia assim: “Quer registrar a superlua de hoje no seu celular? Veja aqui dez dicas”. Dez dicas para ver da mesma forma o que todo mundo acha que está vendo? Registrar a Lua no celular, em vez de olhar na cara dela? Que cansaço me deu pensar em selfies lunares… A Lua é super todos os dias, mesmo quando não usa capa nem ganha manchetes nos jornais. É só botar reparo nela. Porém, para isso precisamos reaprender a sentir sem pressa tudo o que está à nossa volta. E, apesar de todos os embrutecimentos que nos cercam, acho que passar o dia todo sem ver, sem escutar, sem provar, sem cheirar, sem tocar o mundo, e sem permitir que ele nos toque, nos afete, nos desarrume por dentro, é viver sem sentido nenhum. Nesse sentido, há mais de 20 anos, tenho viajado por todas as regiões do Brasil para falar da serventia do encantamento na vida da gente. Um dia, eu rabiscava algo sobre isso, antes de uma viagem. Dentro do avião, vi que quase todas as pessoas conversavam ao telefone, mandavam mensagens, batiam fotos, balançavam a cabeça com seus fones no ouvido. Mas não me senti tão sozinho quando reparei que uma mulher escrevia a lápis em uma folha de papel almaço e parava para contemplar o movimento dos passageiros e das comissárias. Nem sabia que ainda existem pessoas que escrevem a lápis em folhas de papel almaço. Senti vontade de saber o que ela tanto escrevia enquanto olhava, e o que tanto olhava enquanto escrevia. Entretanto, na maioria das vezes, imaginar me tenta ainda mais do que saber. Para dar um pouco de descanso na imaginação, olhei pela janela, mas quase tive um troço quando li o que eu já havia lido tantas vezes, sem parar para refletir. Estava escrito lá: NÃO PISE NA ASA. E eu não sabia o que fazer com aquela perturbação. Afinal, eu pensava, para quem será que escreveram um aviso tão desatinado? Para um pelicano alfabetizado? Para um anjo leitor? Para uma alienígena viciada em pisadas de asa? Pensei em pedir à aeromoça que clareasse o meu tormento, mas achei que ela também poderia entrar em parafuso e espalhar desnorteio entre os passageiros. Ao meu lado, um homem fotografava a própria tela do computador, e a tela estava cheia de gráficos ainda mais assustadores que aviso para pelicano. Então tive mesmo que conviver sozinho com aquela frase, até o avião pousar. Dias depois, jantando com um velho amigo, perguntei se já havia reparado naquela história de não pisar na asa, e ele, rindo da minha angústia, me explicou: “Rapaz, não é possível que você não saiba… esse lembrete é para os caras da manutenção não pisarem naquele local específico, enquanto estiverem trabalhando”. Naquele momento, disse ao meu amigo: “Muito obrigado, você acaba de pisar na minha asa”. Esse episódio me leva a um poema do Mario Quintana chamado Crenças, publicado no livro Velório sem Defunto (Alfaguara). “Seu Glicínio porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego / É uma crença que ele traz da sua infância. / Não o desiludas com o teu vão saber. / Não o esclareça dos seus queridos enganos. / Não se deve tirar o brinquedo de uma criança. / Tenha ela oito ou oitenta anos.” Seu Glicínio porteiro me faz pensar: para que servem essas explicações de tirar brinquedo? Qual o gosto de passar uma caneta vermelha na fantasia alheia? Quantas vezes será que pisamos na asa de alguém com o nosso vão saber? Na realidade, mais do que tudo, acho que só tiramos o brinquedo de alguém quando não conseguimos enxergar a nossa própria asa, tão atrofiada por falta de uso. E, se não enxergamos a nossa própria asa, como vamos enxergar a asa do outro? Quantas vezes também será que nós pisamos, abrindo mão dos nossos desejos mais simples, mais legítimos, mais autênticos? No rastro dessas perguntas, há dois anos, passei uns dias com o meu filho, Gabriel, em Buenos Aires, capital portenha. Chegamos lá com roteiros que amigos nos fizeram de tudo o que não poderíamos deixar de conhecer, e realmente conhecemos lugares deliciosos, mas gostamos ainda mais de nos perder pela cidade, flanando, sem roteiros, sem mapas, de café em café, de uma praça a outra, de cena em cena, de pessoa em pessoa. Foram dias feitos de conversas, sentidos, silêncios, reparos. E, no meio
de um desses reparos, quando estávamos prestes a fazer um passeio de ônibus pela cidade, escutamos um casal que conversava atrás de nós. Palavras da mulher, enquanto entrávamos no ônibus: “Ai, que cheiro de flor… Não gosto de cheiro de flor”. Ao meu lado, já sentado, Gabriel comentou a frase: “Dizer que não gosta de cheiro de flor é o mesmo que dizer que não gosta de vida, não acha? Para mim, foi pior que se ela dissesse: ‘Eu detesto cheiro de flor’. Eu acho que não gostar é pior que detestar”, me disse o meu filho, na época com 14 anos. Concordei com ele. Se ela dissesse que detesta cheiro de flor, poderia estar num mau dia, aborrecida por algum acontecimento, movida por alguma emoção de destrambelhar lucidez. Mas ela só disse que não gostava, com tranquilidade, sem raiva, sem escândalos, simplesmente como quem diz que não gosta de vida. “Não gosto de cheiro de flor”, a frase despetalava minha ideia, enquanto descíamos para ver a Plaza de Mayo e escutávamos mais resmungos da mulher e também do homem que estava com ela. “Meu Deus, que frio, meu Deus, como as coisas estão caras, meu Deus, que demora para descer do ônibus” – eles diziam. E eu pensava: meu Deus, por que não olham pela janela, meu Deus, por que não beijam na boca, meu Deus, por que não param de amolar Deus e aproveitam o dia? À noite, deitado na cama, fiquei pensando ainda mais. Quem sabe o cheiro das flores joga na cara daqueles dois toda a vida que eles não vivem? De fato, não é fácil sentir cheiro de vida perdida. Ah, o casal era também nosso vizinho de porta, no hotel. Não fomos de excursão, mas compramos o mesmo pacote que ambos. Sim, eles tinham o mesmo pacote, mas uma forma tão diferente de desembrulhá-lo… Depois que constatei isso, tive vontade de mandar para eles uns alfajores, um vinho e um texto pervertido da (escritora francesa) Anaïs Nïn, para ver se aqueles dois conseguiam encher a cara de sonho, mas não deu tempo. No dia seguinte, eles já estavam de malas nas mãos, partindo para outro lugar. E, antes de seguir para o café da manhã e comer todas as rodelas de pomelo rosado (toranja) do hotel, enquanto via que as malas do casal eram iguais
e tinham a mesma cor, uma pergunta ficou me perturbando: o que vai na bagagem de quem não gosta de cheiro de flor? Há umas semanas, essa história me veio à memória, quando almocei no Biscui, restaurante que dá cheiro de flor ao meu dia. Sentada à minha frente, uma moça pediu ao gentil garçom Fábio: “Por favor, eu gostaria de uma água com gás e um pouco de gelo espremido… Me desculpe, gostaria de um limão espremido”, ela se corrigiu. E eu pensava, não se desculpe por essa beleza que você acabou de criar, não se desculpe, que eu vou passar a vida com inveja de você por nunca antes ter feito esse pedido. Na saída, a moça estava ao meu lado, na fila do caixa. Perguntei o seu nome, falei da minha inveja incontida, revelei que eu contaria essa história numa crônica, e ela riu da própria criação. “Foi sem querer que eu disse isso, mas logo depois eu vi que um gelo espremido não tinha sentido”, constatou a Meli. Não sei se é assim que se escreve o seu nome. Só sei que disse a ela que as coisas mais belas muitas vezes nascem sem querer e que a poesia não é para ter sentido. A poesia, que está disponível para nós, à nossa volta, é para provocar os sentidos, eu diria hoje à Meli, que depois saiu do restaurante puxando uma mala de rodinhas. Para onde a poesia mais me puxa? Por onde eu mais gosto de puxá-la? Para onde a vida mais tem puxado a Meli? Depois daquela experiência, fiquei com urgência de ir a um restaurante, só para puxar uma cadeira e pedir um copo de gelo espremido. Pensar em gelos espremidos me deu desejo de reler uma entrevista que fiz na década de 90 com o (escritor) Manoel de Barros, por conta do seu livro Exercícios de Ser Criança (Salamandra). Nessa entrevista, o poeta me disse que criar imagens e metáforas é uma maneira de aumentar o mundo e me explicou por que as crianças sabem fazer isso tão bem. “Se digo que me enferrujei de lata, criei uma coisa nova. Criei um ser humano que fica enferrujado, que nem um prego. As crianças criam essas imagens porque ignoram prescrições e regulamentos do sério. A criança não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras, e assim por diante. Ela não sabe se pedra tem aflição, por isso cria”, me escreveu o Manoel, à máquina, com remendos feitos à mão. Por que será que pensar em remendos feitos à mão me amansa tanto e me dá tanta gana de desordem? “O gosto pela liberdade se manifesta nas desobediências. Andar de costas na chuva é sinal de liberdade”, Manoel também me disse nessa entrevista. Na praça perto de casa, em Copacabana, num fim de tarde, vi uma menina de 6 anos que andava em zigue-zague, seguindo os desenhos das pedras, ou as aflições delas, quem sabe? Mas logo a mãe pisou na asa da filha: “Anda direito, Marcela!” E a menina passou a andar em linha reta, sem curvas, sem surpresas, sem criar imagens, de cabeça baixa. Que cena… Será que a Marcela jamais vai andar de costas na chuva? Tomara que ande, tomara que ande. Imagino a Marcela daqui a 30 anos fazendo um curso para reaprender a entortar os passos, subverter mesmices, viver e trabalhar com criatividade e honestidade intelectual. Acho que só quando desobedecemos é que criamos algo realmente nosso e exercitamos a nossa autenticidade. Também acredito que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas que toda pessoa feliz, de alguma forma, é autêntica. No entanto, por medo de sermos rejeitados, criticados, corrigidos, censurados e esquecidos, passamos a vida presos a regulamentos do sério, abrimos mão dos nossos zigue-zagues mais íntimos, e deixamos de olhar, agir e pensar com originalidade. É assim que nos afastamos da fantasia e de tudo o que ela tem de mais humano, transformador, apetitoso, revelador, essencial. “PARE, OLHE, ESCUTE”, me manda a placa da estação ferroviária, à beira de um trilho, numa cidade do interior de São Paulo onde estive outro dia. Num mundo cada vez mais cheio de pressa, olhos embaçados, ruídos, e cobranças pragmáticas, obedecer à placa de uma pequena estação de trem é uma transgressão irresistível.
 Crédito: Vida Simples Digital; MÁRCIO VASSALLO; 10/07/2017.

Depressão não é sinônimo de tristeza

Acontece nas melhores e nas piores empresas. O colega é motivado, esperto, capaz de agir rápido. Encontra belas soluções para os maiores desafios e sempre cumpre prazos. Não tem preguiça. Veste o figurino do mundo corporativo e circula em ambientes refrigerados, mas faz o estilo Capitão Nascimento: “Missão dada é missão cumprida”.

Até que, sem razão aparente, começa a sentir dificuldades de concentração. Uns esquecimentos aqui e ali. Não consegue mais planejar e tomar decisões como antes. Os colegas acham que ficou acomodado. Criam a versão que lhes parece mais conveniente e espalham o veneno: “Mais um espertinho fazendo corpo mole”.

O chefe interpreta a nova postura como falta de comprometimento. Conclui que ele não veste mais a camisa da empresa e o inclui rapidamente na lista dos que, em breve, serão “promovidos ao mercado”.  Quem sofre não sabe o que tem, mas sabe que alguma coisa está errada. Uma colega observadora desconfia de depressão. Ninguém a leva a sério. “Como ele pode estar deprimido se conversa, brinca, sorri? Quem está deprimido fica triste, resmunga, chora no banheiro”, diz alguém.

Esse é um roteiro bem conhecido pelos especialistas em saúde mental. Frequente nas empresas, mas raramente administrado como se deve pelos gestores. Depressão não é sinônimo de tristeza. Nem sempre a tristeza é o principal sintoma. Às vezes, o que aparece são as dificuldades cognitivas já mencionadas ou só perda de prazer.

Qual é o impacto da depressão no ambiente de trabalho no Brasil? Até recentemente pouco se sabia a respeito. Os resultados da maior pesquisa sobre o tema, divulgada em primeira mão nesta coluna, dão pistas importantes.

Mil adultos com idades entre 18 e 64 anos, trabalhadores ou gestores em empresas instaladas no país, preencheram questionários detalhados pela internet. A pesquisa faz parte de um estudo já realizado em vários países da Europa, com financiamento da empresa farmacêutica Lundbeck.

No Brasil, a análise dos resultados ficou a cargo de Clarice Gorenstein, professora do departamento de farmacologia da Universidade de São Paulo (USP), e do médico Wang Yuan-Pang, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

“Ainda existem muitos estigmas em relação à doença, seus sintomas e suas consequências”, diz Clarice. “Os gestores não se dão conta da magnitude do prejuízo que a depressão pode causar à produtividade dos empregados e, consequentemente, à produtividade da empresa.”

Os principais resultados:

• Quase 20% dos entrevistados afirmaram já ter recebido diagnóstico de depressão
•  33% dos que tiveram depressão precisaram se ausentar do trabalho em algum momento
• 53% disseram conhecer alguém no ambiente de trabalho que teve depressão
• Depois do período de afastamento por depressão, as mulheres voltam ao trabalho, em média, depois de 56 dias
• Os homens demoram mais. Voltam depois de 80 dias.

“Os homens costumam resistir à ideia de procurar um médico”, diz Wang. “O tratamento começa quando a situação já se agravou e, por isso, eles demoram mais a voltar ao trabalho depois do afastamento.”

Apenas uma em cada dez pessoas reconhece que indecisão, esquecimento e dificuldade de concentração podem ser sinais de depressão. Apesar do desconhecimento em relação a isso, 53% das pessoas que tiveram depressão afirmaram ter sentido um ou mais desses sintomas.

Entre os gestores, o despreparo é notável. Eles são muito preocupados com metas, mas dão pouca atenção às condições emocionais dos subordinados – apesar disso ser uma séria ameaça aos resultados perseguidos.

Gestores que sabem lidar com gente são joias raras. Na pesquisa, a maioria disse que as empresas têm recursos para lidar com a depressão, mas eles sentem falta de apoio formal. Ou seja: não há programas e políticas internas para lidar com o problema.

“No estudo, verificamos que poucos gestores reconhecem a indecisão e a falta de concentração como sintomas de depressão”, diz Clarice. A maioria não faz essa relação.

O que, afinal, causa a depressão? Problemas na família? Trânsito? Violência? Ou o próprio trabalho? A depressão do sujeito foi disparada pelo chefe ou pelo casamento ruim? Pelo assédio moral na empresa ou por sua condição sócio-econômica?

Nos casos em que o sofrimento é decorrente do ambiente de trabalho é sempre difícil estabelecer aquilo que os juristas chamam de nexo causal, mas não é impossível. Aqui o  psiquiatra e médico do trabalho Duílio Antero de Camargo explica como fazer isso.

Duilio é um especialista no fenômeno do presenteísmo – aquela situação em que o funcionário não falta ao trabalho, mas trabalha doente.

A coisa é mais ou menos assim: a pessoa trabalha num ritmo insano, enfrenta pressões e acostuma-se a ouvir reclamações constantes da chefia em reuniões constrangedoras. Passa anos nesse ritmo como se esse fosse o ambiente natural de sua profissão. Não reclama, por medo de perder o emprego ou porque não quer ser considerado um fraco.

Até que um dia os problemas emocionais começam a aparecer. Pode ficar ansioso, meio deprimido ou sentir medo. Se isso durar um dia ou outro e não atrapalhar a vida do sujeito, significa que ele ainda não está sofrendo de uma doença psiquiátrica.

Se a ansiedade, a depressão e o medo perdurarem e começarem a provocar problemas físicos (taquicardia, hipertensão, dores de cabeça, insônia, por exemplo) pode ser o sinal de que um transtorno mental está instalado.

Esse é um terreno fértil para uma série de males, entre eles transtorno do pânico, depressão, transtornos do sono, síndrome de burnout (esgotamento total) etc.

Quem preza a própria saúde precisa perceber o que está em jogo. Será que vale a pena competir, suportar todas as pressões, conquistar um salário invejável e depois torrá-lo no psiquiatra?

“Metas cada vez mais difíceis e todo tipo de pressão leva ao adoecimento”, diz Camargo. “Quanto mais falamos sobre o assunto, mais as pessoas têm condições de fazer uma autocrítica sobre as situações que estão vivendo.”

Esse é o valor dessa pesquisa. Ela quantifica algo que estava no ar, flutuando no espaço dos temas incômodos, das verdades que poucos gostam de assumir.

Agora o quadro está claro. Abaixo alguns dos sinais de depressão. Há vários outros. Alguns podem aparecer, outros não.

* Distúrbios do sono
* Falta ou aumento do apetite
* Cansaço
* Diminuição da libido
* Tonturas, palpitações ou mal-estar constante

* Impaciência
* Perda do senso de humor
* Tristeza
* Dificuldade de tomar decisões
* Medo, angústia, insegurança

* Baixo nível de concentração
* Expectativas negativas
* Avaliação negativa de si mesmo, do mundo e do futuro
* Perfeccionismo
* Tendência ao isolamento

Por Cristiane Segatto, 2 de julho de 2017.

TEXTO ORIGINAL DE ÉPOCA

O QUE APRENDEMOS COM “UMA MENTE BRILHANTE”

John Nash, o gênio da vida e da matemática que inspirou o fantástico filme Uma mente brilhante, faleceu este ano.

Baseado no livro homônimo de Sylvia Nasar, o longa-metragem produzido em 2001 foi um verdadeiro sucesso que ganhou quatro Oscars e incontáveis seguidores. Protagonizado por Russell Crowe, o filme nos oferece uma grande mensagem que nos convida a encontrar uma maneira de superar nossas limitações, sejam elas quais forem.

Aos que não conhecem a história de John Nash…
John Nash tinha 30 anos quando foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide. A ambição saudável de sua mente privilegiada lhe impôs a carga de uma terrível doença que o devastava.

Era uma mente brilhante e de destaque quando tudo aconteceu. No entanto, nada o impediu na hora de perseguir seus sonhos. Depois de anos de tratamentos sangrentos que tentavam ajudá-lo a superar sua doença mental, John Nash conseguiu manter-se sem sintomas.

Aprendeu a conviver com vozes e com suas alucinações. John ouvia vozes, via coisas… mas pôde lidar com elas. Seu trabalho interno foi, como é óbvio, descomunal até o fim de sua dias. Logicamente viver sem ser capaz de discernir o que é real e o que não é foi muito complicado; no entanto, a mente brilhante de Nash conseguiu.

Nash ganhou o Nobel de Economia em 1994 por sua teoria dos jogos, ainda válida e útil no campo da estratégia. John combateu a esquizofrenia paranoide durante toda a sua vida. E, sim, conseguiu. Conseguiu levar uma vida completamente diferente da que sua doença lhes destinava.

Sua morte, como a sua vida, não foi a esperada. Em 23 de maio de 2015 Nash faleceu, junto à sua esposa, vítima de um acidente de trânsito.

Exemplo de superação e de esperança
Devemos muito a ele, não só por sua contribuição à ciência, mas por nos contar sua história e voltar “ao mundo dos sãos” para nos ensinar que, trabalhando nosso interior, todas as mentes são brilhantes.
John agarrou-se à sua inteligência e conviveu com as vozes em sua cabeça, apesar de ser sufocado por elas. Sua luta não foi fácil. No entanto, conseguiu entender que o caminho da sua vida estava na aceitação, e nos mostrou isso.

Então lhe bateu a inspiração. Ele conseguiu criar um mundo estável num lugar em mudança. Apesar de suas limitações, Nash conseguiu uma posição como professor do MIT, enquanto, por sua vez, recuperava o brilho que seu problema mental havia tentado apagar.

John Forbes Nash aprendeu a viver com a esquizofrenia durante toda a sua vida aplicando uma regra de acordo com a qual “todo problema tem uma solução”. Algo que, embora não seja válido para todos os doentes mentais, pode se adequar a muitas vidas de alguma forma:

Viver sabendo que grande parte de nossa dor é inevitável deveria ser uma premissa que todos deveríamos seguir. Sem dúvida, John nos ofereceu a chave para desfrutar da vida: aceitar, fluir e agir.

A esquizofrenia tem cura ou não?
Às vezes, o que uma pessoa precisa não é de uma mente brilhante que lhe fale, e sim de um coração paciente que lhe escute.
O jornalista investigativo Robert Whitaker conta que, durante muito tempo, a Lapônia Ocidental (Finlândia) tinha as taxas mais altas de esquizofrenia entre a sua população. Para termos uma ideia, ali moram umas 70.000 pessoas, e na década de 1970 e princípios de 1980, todo ano se davam vinte e cinco ou mais novos casos de esquizofrenia, o dobro ou triplo que no resto da Finlândia e da Europa.

No entanto, Yrjö Alanen chegou ao hospital psiquiátrico de Turku (Finlândia) em 1969. Naquela época, eram poucos os psiquiatras que acreditavam na possibilidade da psicoterapia como tratamento para as psicoses.

Alanen pensava que as alucinações e os delírios paranoides dos pacientes esquizofrênicos, quando eram analisavam cuidadosamente, mostravam histórias com sentido.
Assim, começaram a escutar os pacientes e as suas famílias. Criaram uma nova modalidade de tratamento que se denominou “Terapia Adaptada às necessidades dos pacientes”. No entanto, não se esqueceram de que cada pessoa é um mundo e fomentaram, por sua vez, a criação e adaptação de tratamentos específicos para cada caso.

Alguns pacientes teriam que ser hospitalizados, mas outros não. Além disso, alguns pacientes poderiam se beneficiar de doses baixas de psicofármacos (ansiolíticos ou antipsicóticos) e outros não.

Assim, como vemos, personalizavam e trabalhavam de maneira minuciosa cada caso, tornando-se conscientes das necessidades de cada pessoa e de cada família. Claro, as decisões sobre o tratamento eram conjuntas, valorizando cada opinião na medida adequada.

As sessões de terapia não giravam em torno da diminuição dos sintomas psicóticos, mas focavam nos êxitos e conquistas anteriores do paciente, procurando assim fortalecer o controle sobre a sua vida.

Desta maneira, o paciente não perde a esperança de ser como os outros, de manter uma normalidade e de conseguir ver mais além em vez de isolar-se.
Durante os últimos anos, a terapia Diálogo Aberto transformou o “ quadro da população psicótica” na Lapônia Ocidental. O gasto nos serviços psiquiátricos da região se reduziu enormemente e, na atualidade, é o setor com menor gasto em saúde mental de toda a Finlândia.

Os 25 novos casos de esquizofrenia ao ano se transformaram em somente 2 ou 3 casos anuais.
O que está claro é que as coisas podem ser feitas de outra maneira. Há outros tipos de tratamentos para as pessoas com esquizofrenia ou outras psicoses que garantam una vida diferente da que estamos acostumados a lhes proporcionar.

Submetemos os pacientes a terapias farmacológicas agressivas, eletrochoques e compaixão, muita compaixão. Não nos esqueçamos da pena, do medo e do desprezo que enchem os olhares que atribuímos a eles. Se somarmos isso, podemos colocar a mão no fogo pelo fracasso. E não nos queimamos.

Por isso, lembrem-se, sempre há melhores maneiras de agir. Entretanto, se como sociedade nos sentimos doentes, não conseguiremos ver que há uma luz maravilhosa no fim do túnel para todos.

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

DICA -História e música

Comédia com pinceladas de drama tem estreia prevista para este mês e conta o encontro entre a música e a essência de cada um de nós.

Um filme que conversa com a alma. Assim é Filhos de Bach, que deve chegar às salas de cinema no final de abril. O enredo gira em torno de Marten, um professor de música na Alemanha que precisa vir ao Brasil, mais especificamente à cidade de Ouro Preto (MG), para resgatar uma herança: uma partitura original do compositor Johann Sebastian Bach. Na cidade mineira, Marten vai encontrando acolhimento, e é nesse caminho que conhece os meninos de uma instituição, garotos que não acreditam no futuro. O professor alemão começa então a dar aulas de música para os meninos. Mais do que ensinar e aprender melodias, eles se reencontram e passam a se enxergar. O filme tem trilha sonora especial: os maiores sucessos de Bach, como Ave Maria, Ária na Corda Sol e Jesus, Alegria dos Homens, tocados em ritmo de chorinho, samba, jazz e batucada. De arrepiar.

Ana Holanda;  Crédito: Vida Simples Digital, 12/05/2017.

 

A VONTADE DE TER AUTOCONTROLE PODE DIMINUIR… SEU AUTOCONTROLE

O autocontrole é um atributo valioso para quem quer alcançar qualquer objetivo, seja manter uma dieta, economizar dinheiro ou se tornar uma pessoa mais focada no trabalho. Sua importância, na verdade, é muito mais antiga do que qualquer uma dessas situações: ela foi (e continua sendo) uma vantagem evolutiva fundamental para que os humanos pudessem passar a viver em sociedade.

Assim, é natural prezar por essa capacidade – e não faltam métodos para ajudar a desenvolvê-la. Mas aí é que vem a grande ironia: querer ter mais autocontrole pode diminuir nossa capacidade de exercê-lo, independentemente de quão controlados nós sejamos.

Os responsáveis pela descoberta foram Liad Uziel, do Departamento de Psicologia da Universidade Bar-Ilan (em Israel), e Roy F. Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, considerado um dos principais pesquisadores do autocontrole no mundo (e um dos mais citados de todos os tempos na psicologia social).

“O autocontrole é uma capacidade humana altamente adaptativa. Considerando que os seus benefícios estão bem documentados, pouco se sabe sobre o impacto de querer desenvolvê-lo”, diz o estudo, publicado recentemente no Personality and Social Psychology Bulletin, periódico oficial da Sociedade de Personalidade e Psicologia Social.

Para entender melhor a questão, os autores realizaram quatro experimentos. Neles, um total de 635 voluntários deveriam realizar tarefas que exigiam muito ou pouco autocontrole. Em alguns dos estudos, o já existente desejo de autocontrole dos participantes foi medido (foi criada uma escala específica para medir isso); em outros casos, esse desejo foi manipulado: as pessoas deveriam pensar nos benefícios de ter mais autocontrole e então realizar a tarefa proposta.
O culpado de tudo

O primeiro e o segundo estudos mostraram que ter um forte desejo (manipulado ou não) de autocontrole prejudicou o desempenho dos voluntários em uma tarefa exigente (ou seja, que exigia mais desse autocontrole), mas não em uma tarefa simples.

Os estudos 3 e 4 mostraram a razão por que isso acontece: quando somos confrontados com uma tarefa difícil, o nosso desejo de autocontrole acaba se traduzindo em baixa autoconfiança – nós ficamos com a sensação de que não temos essa capacidade em um nível suficiente. Isso leva a uma queda no que os psicólogos chamam de autoeficácia, ou a crença nas nossas próprias habilidades. E uma baixa autoeficácia leva à perda de engajamento na tarefa que temos a desempenhar. Nós achamos que não somos capazes e aí nos esforçamos menos, como uma profecia autorrealizável.

Esse efeito é tão forte que provoca resultados homogêneos, não importa a predisposição básica de exercer autocontrole que cada pessoa já tenha. Isso quer dizer que tanto as pessoas mais controladas quanto as menos controladas tiveram desempenhos semelhantes quando carregavam um forte desejo de ser desenvolver mais essa capacidade.

Moral da história: confie que você é capaz de fazer as coisas que se propões a fazer e tente não exigir demais de você mesmo.

Por Ana Prado, 27 de junho de 2017, Psicologia do Brasil.

TEXTO ORIGINAL DE SUPERINTERESSANTE

O momento de desistir

Como saber qual o instante de seguir em frente e persistir ou de mudar a rota, os planos, o caminho das coisas

Sabe aquela expressão: “Desistir não faz parte de meu vocabulário!”? Pois é, eu já ouvi muita gente boa dizer isso. E, mais de uma vez, fiquei pensando se tal postura significava uma grande força interior da pessoa, digna de respeito, ou denunciava uma teimosia pouco saudável e, neste caso, não merecedora de admiração. Eu mesmo já me vi nessa situação, o que me levou à reflexão sobre os limites. Até que ponto persistir é sinal de determinação e confiança, e em que momento ultrapassamos a linha da prudência e entramos na zona irresponsável daquela insistência que não resistiria ao argumento sólido da análise lógica? Mas é a persistência que é exaltada. A desistência, jamais. Experimente passar os olhos pela seção de obras de autoajuda de uma livraria. Você vai encontrar uma imensa variedade de livros que louvam a persistência e a determinação. São milhares de depoimentos de mulheres e homens ilustres e também de desconhecidos que se tornaram heróis por sua capacidade de superar obstáculos e não desistir jamais. Verdadeiros legados da força de vontade. Longe mim – muito longe mesmo – diminuir o valor desses depoimentos. Todos sabemos que pessoas persistentes são valiosas, não só por suas realizações mas também por seus exemplos, afinal, a determinação, a persistência, a resiliência e a força de vontade são, sim, ingredientes essenciais das conquistas humanas. Mas a questão não é essa. O tema em pauta é dar-se conta
da diferença entre a persistência e a teimosia, o que, pode acreditar, é sutil como um suspiro. Esse assunto faz parte daquilo que eu costumo chamar de “efeito praia”. O que é isso? Bem, é uma metáfora que aprendi nos estudos da biologia, mais precisamente da ecologia. Segundo os estudiosos da área, há os biomas e os ecótonos. Bioma é um meio geográfico que tem formas de vida, como animais e plantas, bem adaptadas, em um ambiente bem definido, como florestas, campos e desertos. Já um ecótono é um meio de transição, que tem características de dois biomas, e se confunde com eles. A praia é um bom exemplo porque tem características do mar e do continente. É uma transição, um meio de passagem, um híbrido, um nem lá nem cá. Pois há sentimentos que também são assim, estão meio lá meio cá, às vezes mais lá do que cá, ou vice-versa. E isso transtorna nossa vida, pode crer. Persistência é um desses estados. Afinal, tal qualidade humana pertence ao continente da força de vontade ou ao oceano da teimosia profunda? Como saber se nos salvaremos com glória ou nos afogaremos? Nos cursos de empreendedorismo esse assunto é tratado com bastante rigor. Empreendedores são pessoas destemidas que têm uma ideia e mobilizam meios para tornar realidade seus sonhos. Eles são fundamentais à economia e ao progresso. Costumam envolver diversas pessoas e apostar alto em um projeto, um sonho individual que vira objetivo coletivo.
Pois mesmo essas pessoas tão importantes à sociedade, quando se aventuram na selva do mercado carregando na mochila ideias, sonhos e determinação, rapidamente percebem que precisam de algumas armas para sobreviver, e uma delas é a estratégia. E faz parte dela considerar o momento de retroceder. As revistas especializadas em negócios costumam reforçar a importância de rever as estratégias e mudar os planos. Isso significa fazer diferente, desistir do que se pretendia e criar uma nova meta. Não há nada de errado nisso. É a aplicação da desistência a favor da conquista. Pode ser paradoxal, mas é disso que se trata. Tentar é necessário. Não conseguir é frustrante, mas faz parte da tentativa. Levantar a cabeça e seguir em frente é dignificante, reinventar-se é glorioso. E saber o momento de mudar de rumo é sinal de inteligência, mesmo que isso signifique desistir. Lembro de uma ocasião em que esse assunto foi discutido com profundidade. O ano era 1984 e eu havia sido convidado para participar de um debate sobre a carreira de médico para um auditório de vestibulandos. Além de mim, mais dois debatedores, médicos conceituados. Um psiquiatra e um cirurgião. Os dois relataram suas experiências, as belezas e dificuldades da carreira, a missão de ser médico, a vocação, a relação com os pacientes, o confronto com a dor e a morte, a vitória da ciência sobre a doença. Relatos maravilhosos e entusiasmantes. Quando chegou minha vez, falei mais da construção de uma carreira, e das dificuldades que todas elas, naturalmente, têm, mas que podem ser enfrentadas com planejamento, muito trabalho e, acima de tudo, persis
tência. Foi quando um aluno se referiu a um fato que tinha ocorrido dias antes. Estavam acontecendo as Olimpíadas de Los Angeles, e um feito tinha ganhado as manchetes do mundo inteiro. Uma maratonista suíça havia concluído a prova cambaleando, com evidente estafa física, puxando uma perna, com a cabeça pendendo para um lado e um ar de sofrimento extremo. Sua atitude foi louvada pela imprensa, como exemplo de persistência, de força superior, de verdadeiro espírito olímpico. Até hoje é, preste atenção. A resposta dos três médicos foi enfática. A atleta havia ultrapassado seus limites e tinha se colocado em grande risco de vida. Seu feito não devia ser louvado, e sim condenado como um ato de irresponsabilidade absoluta. Seu, de seu técnico e da própria organização da prova. É difícil dizer, mas se ela tivesse que avançar mais uma centena de metros talvez tivesse uma lesão cerebral irreversível. Quem pode dizer que não? O filme Everest (2015) conta a história real da tragédia de uma expedição realizada em 1996. O alto preço da expedição, a rivalidade entre os guias de duas equipes e a insistência em não voltar mesmo diante do agravamento das condições provocaram várias mortes e mutilações. Maldita persistência, disse alguém. Desistir não é feio. Feio é não tentar. E mais feio ainda é não reconhecer que errou, que se enganou, que tem que mudar de planos, que pode mudar de ideia. Qual o problema? E na hora da dúvida, sempre dá para recorrer àquela oração que pede coragem para enfrentar o que se pode mudar, serenidade para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para perceber a diferença entre essas duas situações.
                                                                        Crédito: Vida Simples Digital, EUGENIO MUSSAK.
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